I - Introdução
início
O
sucesso terapêutico do tratamento de doenças em humanos
depende de bases farmacológicas que permitam a escolha do medicamento
correto, de forma científica e racional. Mais do que escolher
o fármaco adequado ("certo") visando reverter, atenuar
ou prevenir um determinado processo patológico; o clínico,
ao prescrever, também precisa selecionar o mais adequado às
características fisiopatológicas, idade, sexo, peso corporal
e raça do paciente. Como a intensidade dos efeitos, terapêuticos
ou tóxicos, dos medicamentos depende da concentração
alcançada em seu sítio de ação, é
necessário garantir que o medicamento escolhido atinja, em concentrações
adequadas, o órgão ou sistema suscetível ao efeito
benéfico requerido. Para tal é necessário escolher
doses que garantam a chegada e a manutenção das concentrações
terapêuticas junto aos sítios moleculares de reconhecimento
no organismo, também denominados sítios receptores. Se
quantidades insuficientes estão presentes no sítio receptor,
o medicamento pode parecer ser ineficaz mesmo sendo o "certo",
falsiando, assim, a eficácia do fármaco escolhido; em
uma situação como esta, o fármaco pode ser descartado
erroneamente, sendo que o sucesso terapêutico poderia ser alcançado
se a dose e/ou o intervalo de administração (posologia)
corretos fossem prescritos. Do mesmo modo, esquemas posológicos
inapropriados podem produzir concentrações excessivas
no sítio receptor, o que acarretaria a produção
de toxicidade e, mais uma vez, o medicamento "certo" pode
erroneamente ser descartado, por apresentar excessivas concentrações
no organismo.
A
concentração terapêutica situa-se entre as concentrações
geradoras de efeito mínimo eficaz (limite mínimo) e efeito
tóxico (concentração máxima tolerada, limite
máximo). A relação entra as concentrações
terapêuticas e tóxicas é chamada índice terapêutico
(I.T.) do fármaco; medicamentos com amplo I.T. apresentam uma
ampla faixa de concentração que leva ao efeito requerido
pois, as concentrações potencialmente tóxicas excedem
nitidamente as terapêuticas, esta faixa de concentração
é denominada "janela terapêutica" . Infelizmente,
muitos fármacos apresentam uma estreita janela terapêutica
(I.T. < 10), por apresentarem uma pequena diferença entre
as concentrações terapêuticas e tóxicas.
Nestes casos, há a necessidade de cuidadosa monitorização
da dose, dos efeitos clínicos e mesmo das concentrações
sangüíneas destes fármacos, visando assegurar eficácia
sem toxicidade. A tabela 1 apresenta alguns exemplos de fármacos
e seus respectivos I.T.
Tabela
1 Índices terapêuticos de alguns fármacos utilizados
em terapêutica
|
Índices Terapêuticos
|
|
Menor que 5,0
|
Entre 5,0 e 10
|
Maior que 10
|
|
Amitriptilina
|
Barbitúricos
|
Paracetamol
|
|
Cordiazepóxido
|
Diazepam
|
Propoxifeno
|
|
Metadona
|
Digoxina
|
Nortriptilina
|
|
Procainamida
|
Imipramina
|
Hidrato de cloral
|
O
estabelecimento de esquemas posológicos padrões e de seus
ajustes na presença de situações fisiológicas
(idade, sexo, peso, gestação), hábitos do paciente
(tabagismo, ingestão de alcool) e algumas doênças
(insuficiência renal e hepática) é orientado por
informações provenientes de uma importante subdivisão
da farmacologia, a FARMACOCINÉTICA.
O
termo CINÉTICA refere-se a um objeto em movimentação.
Farmacocinética é a disciplina que usa modelos matemáticos
para descrever e prever a quantidade dos medicamentos e suas concentrações
em vários fluidos do organismo e as mudanças nestas quantidades
com o tempo. Para fins didáticos e conceituais, o comportamento
das substâncias ativas, após administração,
dentro do corpo humano é usualmente dividido, de uma maneira
arbitrária, em processos de absorção, distribuição,
biotransformação e excreção. Devemos ter
clara a ocorrência simultânea destes processos no organismo
vivo, apesar de que, muitas vezes, assumimos a independência de
cada um destes processos em relação aos outros; as variações
nas concentrações dos fármacos em alguns fluidos
corporais são sempre o resultado da simultaneidade da ocorrência
destes processos, o que ocasiona taxas que estão continuamente
sendo alteradas.
A
farmacocinética é definida como o estudo quantitativo
do desenvolvimento temporal dos processos de absorção,
distribuição, biotransformação e excreção
dos fármacos. Nestes estudos, os teores dos fármacos e
seus metabólitos (produtos da biotransformação)
no organismo são determinados, permitindo a obtenção
de importantes dados sobre estas substâncias, tais como:
- Condições
para seu uso adequado, pela determinação da via de administração,
posologia (doses e intervalo entre as doses) e variações
correlatas em função de patologias como insuficiência
renal, alterações hepáticas e outras.
- Previsão
de outros efeitos em potencial, como os colaterais, por exemplo no
caso de acúmulo do fármaco em determinado compartimento
(organotropismo); ou ainda os oriundos de interações
medicamentosas a nível dos processos de absorção,
distribuição, biotransformação e excreção.
- Determinação
dos principais sítios de biotransformação.
- Determinação
das vias de excreção.
Assim
sendo, podemos afirmar que a compreensão e a aplicação
cuidadosa dos princípios farmacocinéticos podem freqüentemente
auxiliar no estabelecimento e manutenção de quantidades
terapêuticas e não tóxicas dos medicamentos no organismo;
isto por permitir uma escolha racional da dose, freqüência
e via de administração. Além disso, como supra
referido, em muitos casos as características dos pacientes são
reconhecidamente responsáveis por alterações do
movimento do fármaco naquele organismo, ou seja das propriedades
farmacocinéticas desta substância em particular (Tabela
2). Ajustes apropriados na dose ou freqüência de administração
podem ser realizados, para compensar estas mudanças, evitando,
assim, os problemas potenciais da ineficácia terapêutica
ou toxicidade. Em uma ampla visão, a compreensão da farmacocinética
pode favorecer as chances de segurança e eficácia da terapêutica
medicamentosa.
A
farmacocinética estabelece estreita relação com
duas outras importantes áreas do estudo farmacológico:
a biofarmácia e a farmacodinâmica. O efeito ou resposta
terapêutica, é o resultado dos fenômenos que ocorrem
após administração de um medicamento e estes dependem,
por sua vez, das características do fármaco, das características
do indivíduo e, o mais importante, da interação
entre estes dois fatores: fármaco e indivíduo. Didaticamente
podemos dividir o estudo da resposta terapêutica em três
fases (Figura 1).
Tabela
2 Possíveis interferentes da farmacocinética
Características
do Paciente
Idade
Sexo
Peso
corporal total
Tabagismo
Consumo
de alcool
Obesidade
Outros
medicamentos em uso
Estados
Patológicos
Disfunção
hepática (cirrose, hepatite)
Insuficiência
cardíaca
Infecção
Queimaduras
severas
Febre
anemias
1.Fase
Farmacêutica 2. Fase farmacocinética 3.Fase
farmacodinâmica
1.
Fase farmacêutica: Estuda a liberação do fármaco
a partir do produto farmacêutico. É constituída
pelo conjunto de fenômenos compreendidos entre a administração
do medicamento e a absorção propriamente dita, os quais
determinam a intensidade e velocidade com que ocorre a entrada da substância
ativa no organismo. Estes fenomênos compreendem basicamente a
liberação e a dissolução do fármaco
contido no produto farmacêutico.
- Liberação:
Ao ser administrado o fármaco encontra-se em uma forma
farmacêutica(F.F.) a partir da qual deve ser liberado; dependendo
da F.F. empregada (comprimido, cápsula, suspensão, xarope,
supositório, etc.) e da via de administração
utilizada, esta etapa pode ser mais ou menos complexa, rápida
ou completa. A liberação ocorrerá sob influência
do meio biológico de aplicação [ ex: pH e
peristaltismo do trato gastrintestinal (TGI) nas vias enterais (oral
e retal)] , principalmente para formas farmacêuticas sólidas,
que necessitam desintegrar-se para então liberar a substância
ativa. A finalidade desta etapa é obter uma dispersão
no estado sólido do fármaco, no meio aquoso de administração,
o que permitirá o cumprimento da etapa posterior de dissolução.
- Dissolução:
Esta etapa, por sua vez compreende a formação de uma
dispersão molecular na fase aquosa, ou seja, a dissolução
progressiva do fármaco, essencial para sua posterior absorção,
desde que seja requerida uma ação sistêmica e
não local. A dissolução muitas vezes é
a etapa determinante da velocidade do processo de absorção.
A
fase farmacêutica, importante etapa do estudo da resposta terapêutica
é um dos objetos de estudo da Biofarmácia, disciplina
que vem despontando como um ramo importantíssimo da investigação
de fármacos; além de estudar esta fase de liberação
e dissolução da substância ativa, a biofarmácia
compreende também a avaliação das interações,
entre o fármaco e o organismo(local de administração),
que determinam sua biodisponibilidade. Este último termo define
uma característica biofarmacêutica de um medicamento administrado
a um organismo vivo intacto e que expressa, simultaneamente, a quantidade
e velocidade na qual o princípio ativo (fármaco) alcança
a circulação sangüínea geral, a partir de
seu local de administração. Devido à sua extrema
importância e, principalmente, tendo em vista a regulamentação
de medicamentos genéricos em nosso país (Lei n0
9787 de 10/02/99 e Resolução n0 391
de 09/08/99), a biodisponibilidade de fármacos será estudada
em um tópico em separado, logo a frente nesta apostila.
- Fase
Farmacocinética: Como já foi dito esta etapa corresponde
ao estudo da evolução temporal do movimento do fármaco
in vivo , que esquematicamente pode resumir-se nos processos
de absorção, distribuição, biotransformação
e excreção de fármacos. Esta fase consiste, portanto,
na identificação e quantificação da passagem
do fármaco pelo organismo.
- Fase
farmacodinâmica: Estuda a interação de um
fármaco específico com seu receptor, ou seja, a ação
do fármaco em seu sítio receptor com as alterações
moleculares e celulares correspondentes (efeito farmacológico),
o que culmina no aparecimento do efeito terapêutico requerido.
O
controle das concentrações plasmáticas constitui
na atualidade uma prática habitual na terapia com diferentes
classes de fármacos, visando o estabelecimento de regimes de
dosagem apropriados para determinados pacientes. Isto, porque as concentrações
de um fármaco no plasma correlacionam-se melhor com a resposta
farmacológica que a dose administrada, uma vez que esta relação
não é afetada pelas variações individuais
dos processos farmacocinéticos de absorção, distribuição,
biotransformação e excreção que, como sabemos,
influi na resposta do paciente.
A
aplicação generalizada desta importante ferramenta na
terapia clínica tem sido possível graças ao desenvolvimento
de métodos analíticos que permitem o doseamento de substâncias
ativas com precisão em diferentes líquidos biológicos
e à possibilidade de expressar em termos quantitativos os processos
que experimentam os fármacos após sua administração;
isto permite a determinação de regimes de dosagem que
se ajustam as necessidades dos pacientes. A utilidade clínica
da farmacocinética reside fundamentalmente nestes aspectos, ou
seja, a aplicação dos princípios farmacocinéticos
no manejo, ajuste da terapêutica em diferentes pacientes, e isto
é o que constitui a disciplina de farmacocinética clínica.
O
princípio básico da farmacocinética clínica
é que a magnitude tanto da resposta desejada quanto da toxicidade
são funções da concentração do fármaco
em seu sítio de ação. No entanto, sabemos que raramente
podemos dosar diretamente a concentração do fármaco
neste local; por isto, as concentrações são normalmente
medidas em um sítio alternativo e mais acessível, o plasma.
Desta forma, podemos dizer que a hipótese fundamental em farmacocinética
clínica é a relação existente entre os efeitos
farmacológicos ou tóxicos de um medicamento e a concentração
dele neste sítio facilmente acessível do organismo. Esta
hipótese tem sido documentada para inúmeros fármacos,
embora para alguns não exista esta clara relação
entre os efeitos farmacológicos e as concentrações
sangüineas. Na maioria dos casos a concentração na
circulação geral estará relacionada com a concentração
no sítio de ação. Os efeitos farmacológicos
podem incluir efeitos tóxicos em adição aos efeitos
clínicos desejados. O clínico precisa avaliar o potencial
tóxico de uma determinada dose e a sua eficácia clínica
para determinar a utilidade do agente em uma situação
clínica específica (Figura 2).
A
farmacocinética exerce um papel importantíssimo na promoção
da eficácia dos fármacos ao fornecer relações
quantitativas entre a eficácia e a dose utilizada. Através
das avaliações das concentrações nos fluidos
biológicos, conseguimos reduzir a toxicidade relacionada aos
níveis sanguineos aumentando a segurança da utilização
dos medicamentos. O conhecimento da relação entre a eficácia
e as concentrações dos medicamentos nos fluidos biológicos
permite ao clínico levar em consideração as características
fisiológicas ou patológicas de um paciente, o que o torna
diferente dos indivíduos normais na resposta a uma determinada
dose de um fármaco.
A
consciência dos benefícios da compreensão da farmacocinética
e das relações entre concentração-resposta
do fármaco, tem levado, principalmente nesta última década,
a aplicação destas informações pela indústria
farmacêutica no planejamento seleção e desenvolvimento
de novos fármacos. A farmacocinética é ferramenta
básica nas diferentes fases da investigação
farmacológica de um novo fármaco:
- Fase
pré-clínica, onde os estudos são realizados
em animais. Esta fase permite a seleção não somente
do composto terapeuticamente mais promissor, mas também a previsão
de uma faixa de doses seguras para uma primeira aplicação
em humanos.
- Fase
clínica, esta, já com estudos em humanos, compreende
o estudo de Fase I, usualmente realizada em voluntários
sadios, onde a farmacocinética, aliada à avaliação
de alguns efeitos colaterais produzidos, ajuda a definir formas e
regimes de dosagem para avaliação na Fase II.
Nesta fase, os estudos são conduzidos em um pequeno número
de pacientes e os trabalhos são dirigidos para a definição
do regime de dosagem mais seguro e eficaz, o qual será usado
na Fase III, de triagem clínica, que freqüentemente
envolvendo centenas de pacientes. Finalmente, o fármaco que
demonstrar eficácia terapêutica e segurança será
aprovado para uma determinada indicação clínica,
por autoridades que regulamentam o uso de fármacos naquele
país.
- Vigilância
Pós-comercialização Farmacovigilância,
após a liberação para comercialização
o medicamento deve ainda ser continuamente avaliado, visando além
de um aprimoramento em seu perfil farmacoterapêutico, a garantia
de eficácia e segurança para o paciente, no que se refere
a efeitos tardios ou raros que estes possam induzir.
II
PROCESSOS FARMACOCINÉTICOS
início
A
atividade terapêutica, ou uma eventual toxicidade, de um medicamento
depende da permanência de seu princípio ativo (ou substância
ativa (s.a.)) no organismo. O estudo de seu trajeto no organismo constitui,
portanto, uma etapa indispensável do conhecimento do perfil do
fármaco e também para a eleição da melhor
forma farmacêutica que se adapte à obtenção
dos efeitos terapêuticos requeridos.
Em
geral, um princípio ativo só pode exercer seu efeito farmacológico
a nível tissular, depois de ter sido transportado para o sangue.
A circulação sistêmica é, portanto, a grande
responsável pela trajetória do fármaco no organismo.
A absorção, primeira fase farmacocinética, assegura
sua penetração no sangue, o qual o conduzirá aos
diferentes tecidos e órgãos, lugares estes de ação
farmacológica, armazenamento, biotransformação
e eliminação.
Devemos
estar atentos para o fato de que o fármaco, seja em sua penetração
ou em sua saída da circulação geral, nos respectivos
processos de absorção, distribuição e/ou
eliminação, está repetindo sempre o mesmo fenômeno
sob aparências diversas: o de atravessar membranas biológicas
sob influência das características físico-químicas
de ambos. Assim sendo, em um primeiro momento, devemos relembrar as
características destas "barreiras" biológicas,
bem como os mecanismos que regem a passagem dos fármacos através
delas.
Os
fármacos em geral passam através das células e
não dos espaços intercelulares que são diminutos,
permitindo apenas o trânsito de água , sais e compostos
de baixo peso molecular. A membrana celular é uma estrutura dinâmica,
mutável e adaptável à passagem de diferentes substâncias.
Seu comportamento funcional é bastante variável no organismo,
o que explica as diferenças observadas na velocidade, quantidade
e tipo de substâncias transportadas pelas diversas membranas celulares.
Dentre seus vários constituintes, destacam-se os de natureza
lipídica, já que há maior permeabilidade às
substâncias lipossolúveis do que às polares, hidrossolúveis,
explicada pela dissolução daquelas na fase lipídica
na membrana. Pode também ocorrer transporte de fármacos
através de complexos protéicos.
A
membrana plasmática consiste em uma dupla camada de lipídeos
anfifílicos com suas cadeias de hidrocarboneto orientadas para
dentro, a fim de formar uma fase hidrófoba contínua e
suas cabeças hidrófilas voltadas para fora. Cada molécula
de lipídeo na camada dupla pode movimentar-se no sentido lateral,
conferindo à membrana fluidez, flexibilidade, grande resistência
elétrica e relativa impermeabilidade à moléculas
altamente polarizadas. As proteínas da membrana embutidas na
dupla camada exercem muitas vezes a função de receptores
que proporcionam vias de sinalização elétricas
ou químicas e alvos seletivos para a ação de fármacos.
Constituintes da membrana, sua inter-relação, polaridade
e diâmetro dos poros conferem seletividade à esta estrutura
celular.
Os
fármacos atravessam as membranas por processos passivos ou por
mecanismos que envolvem a participação ativa dos componentes
da membrana. Abaixo, teceremos algumas importantes considerações
sobre os diferentes mecanismos de transporte através de membranas.
- Transporte
através de Membranas
Os
processos passivos, que independem de energia celular, compreendem a
difusão simples e a difusão por poros e a filtração.
O caso mais comum é a penetração do fármaco
por difusão simples seguindo um gradiente de concentração
em virtude de sua solubilidade na camada lipídica. Esta transferência
é diretamente proporcional ao gradiente de concentração
através da membrana. A explicação física
para o fenômeno da difusão é que cada partícula
de soluto possui movimento aleatório próprio, dado pelo
seu grau de agitação térmica molecular e que, além
disso, sofre choques constantes de outras partículas adjacentes;
assim, nas regiões onde a concentração de soluto
é inicialmente maior, esses eventos de choque ocorrem em maior
proporção que naquelas regiões onde a concentração
de soluto é baixa ou nula. Desta forma, embora cada partícula
se mova ao acaso, o movimento global médio do soluto se direciona
para "invadir" áreas de menor concentração
e o transporte do soluto é realizado na região de maior
para a de menor concentração através da membrana,
sem interferência e gasto de energia pela mesma.
Também
intervém no processo de difusão simples o coeficiente
de difusão da molécula: esta se difundirá mais
rapidamente através de uma membrana quanto menor for seu tamanho;
porém o elemento mais importante para a permeabilidade de uma
molécula através de uma determinada membrana é
seu coeficiente de partição lipídeo/água:
quanto maior a lipossolubilidade da molécula, maior é
seu coeficiente de partição e mais rápida será
sua difusão. Apesar disto, não podemos esquecer que o
organismo é uma sucessão de fases lipídicas e aquosas
e que portanto um coeficiente de partição muito elevado
ou muito baixo, pode constituir um obstáculo à difusão
generalizada do fármaco.
A
difusão por poros, também conhecida como
difusão aquosa, ocorre para substâncias hidrossolúveis
de pequeno tamanho (íons inorgânicos, uréia, metanol,
água) e estas podem transpor a membrana através de poros
virtuais, verdadeiros canais aquosos formados entre as proteínas;
essa passagem envolve fluxo de água, resultante de diferenças
de pressão hidrostática ou osmótica através
da membrana, o qual arrasta pequenos solutos. O diâmetro dos canais
é variável, para a maioria das membranas, os poros possuem
diâmetro ainda menor, 4 a 7 Å, permitindo somente a passagem
de substâncias com peso molecular muito pequeno. Já as
células endoteliais dos capilares, tem poros de diâmetro
maior, cerca de 30 a 40 Å, permitindo a passagem de moléculas
maiores mas, impedindo a passagem de moléculas tão grandes
quanto a albumina. Por isso fármacos ligados às proteínas
plasmáticas não passam, em condições fisiológicas,
ao líquido intersticial. O processo de difusão por poros
é muito importante nos tecidos renal e hepático.
A
filtração também é um processo
passivo que implica na passagem através dos poros da membrana,
no entanto, aqui soluto e solvente movem-se juntos através da
membrana, a favor do gradiente de concentração, não
havendo, portanto gasto energético pela célula. O solvente,
normalmente água, leva consigo moléculas hidrossolúveis
de pequeno tamanho, polares através dos poros da membrana; o
tamanho e a carga elétrica do soluto e dos poros, influem diretamente
neste processo. Capilares e o glomérulo renal são os principais
locais de ocorrência deste processo de transporte por membranas;
as forças responsáveis pela filtração são
pressão osmótica e hidrostática.
Transportes
especializados são utilizados por fármacos hidrossolúveis
de maior tamanho molecular, o que os impede de transpor a membrana pelos
processos passivos . Deslocam-se mediante a complexação
com carreadores, componentes da membrana celular (proteínas)
que a atravessam segundo seu próprio gradiente de difusão,
liberando o substrato no outro lado e retornando a posição
original. Os carreadores tem especificidade pelo substrato e são
saturáveis.
Os
transportes especializados requerem, ou não, gasto energético.
Na difusão facilitada o carreador transporta o
fármaco a favor do gradiente de concentração, com
velocidade superior a da difusão simples. Na difusão
por troca o carreador após transportar o fármaco,
retorna ao lado original, ligado a outra molécula. Já
no transporte ativo o movimento do fármaco se faz
contra o gradiente de concentração, gradiente elétrico
ou uma combinação de ambos, com gasto energético
pela célula; esta energia é fornecida por hidrólise
do ATP ou de outras ligações altamente energéticas.
Estes sistemas de transporte especializados são passíveis
de competição, ou seja, substâncias similares ao
fármaco, endógenas ou exógenas, podem competir
pelo mesmo carreador da membrana.
Outros
processos ativos que devem ser evidenciados são a endocitose
e a exocitose. A endocitose ocorre quando partículas
sólidas (fagocitose) ou líquidas (pinocitose) são
englobadas pela membrana, mediante sua invaginação, seguida
de estrangulamento, formando-se vacúolos que se situam na própria
membrana ou no interior da célula. Na exocitose ("vômito
celular"), após a fusão com a membrana há
liberação do conteúdo vacuolar para o exterior.
A
velocidade de transporte de substâncias através
de uma membrana é influenciada pela espessura e área permeável
da membrana, bem como por características do fármaco,
como tamanho, forma molecular e coeficiente de partição
lipídeo/água. A constante de dissociação
(pKa) da substância ativa e a concentração hidrogeniônica
(pH) do meio onde se encontra (compartimentos corporais), também
influenciam potencialmente sua velocidade de transporte por membranas
biológicas. Para eletrólitos fracos, sais de ácidos
ou bases fracas, como são a maioria de nossos fármacos,
o pH do meio determina seu grau de dissociação em solução.
Para estes fármacos, a passagem passiva através da membrana
dependerá da lipossolubilidade e da quantidade da forma não
ionizada.
O
grau de ionização portanto, é dependente de dois
fatores relacionados pela equação de Henderson Hasselbach,
abaixo representada:
- A constante
de dissociação da substância ou pKa
- O pH
do meio onde se encontra a molécula, o qual pode ser diferente
entre os lados da membrana.
O
valor do pKa de uma substância representa o valor de pH do meio
no qual a concentração da forma ionizada é igual
a concentração da forma não inonizada. Qualquer
pH diferente desse, origina proporções diversas das formas
ionizada e não ionizada. Assim, ácidos fracos em meio
ácido se dissociam pouco permanecendo predominantemente em forma
molecular, mais lipossolúvel e com melhor capacidade de difusão.
Na expressão geral para ácidos, abaixo, há predomínio
do primeiro termo da equação:
HA
= H+ + A-
Onde,
HA = Forma protonada do ácido, molecular, não ionizada.
No
mesmo meio ácido, bases fracas (aceptoras de prótons)
estão, predominantemente, em forma ionizada, polar, mais hidrossolúvel
e portanto, com maior dificuldade para transpor membranas. Na expressão
geral para bases, abaixo, há predomínio do segundo termo
da equação:
B = +H + BH+
Onde,
BH+ = Forma protonada da base, ionizada.
Em
pH básico, meio alcalino, os processos são inversos. O
equilíbrio entre os dois lados da membrana na difusão
passiva se dá entre as formas não ionizadas. Assim, uma
membrana que separa fluidos com diferentes pH, terá maior concentração
de um fármaco ácido no lado alcalino e vice-versa.
Esta
teoria tem extrema importância em toda a farmacocinética:
no processo de absorção através do trato gastrintestinal
(TGI), por exemplo, onde são amplas as variações
de pH ( 1 a 3,5 no estômago, 5 a 6 no duodeno e próximo
de 8 ao nível do íleo); ou ainda no tratamento de certas
intoxicações medicamentosas, onde a modificação
do pH do meio permite a liberação da substância
ativa a partir dos locais de fixação tisssular e sua eliminação;
exemplificando: a alcalinização urinária acelera
a excreção renal de um barbitúrico, ácido
orgânico fraco, que por estar em sua forma ionizada no pH alcalino,
terá dificuldade em sofrer reabsorção tubular,
o que favorece o controle da intoxicação.
2.1.
Absorção de fármacos
Como
foi dito para alcançar o local de ação o fármaco
é obrigado, na maioria dos casos, a atravessar membranas biológicas
como o epitélio gástrico e intestinal, ou o endotélio
vascular, ou ainda as membranas plasmáticas celulares. Quando
esta travessia se dá do local de administração
do fármaco ao sangue, temos o processo de absorção,
primeiro movimento de aproximação do sítio de ação,
uma vez que permite a passagem desta substância ao meio circulante.
Assim, o processo de absorção tem por finalidade transferir
o fármaco do local onde é administrado para os fluidos
circulantes, representados especialmente pelo sangue. Por exemplo, um
fármaco injetado no músculo terá que se difundir
a partir do local de injeção e atravessar o endotélio
dos vasos sangüíneos mais próximos, para alcançar
a circulação sistêmica e, portanto, ser absorvido.
Sem
abordar o problema da biodisponibilidade que será discutida à
frente, a importância deste processo de absorção
reside essencialmente, na determinação do período
entre a administração do fármaco e o aparecimento
do efeito farmacológico, bem como na determinação
das doses e escolha da via de administração do medicamento.
Vários
são os fatores que podem influenciar este processo de absorção
e devem, por isto, serem aqui apresentados e analisados.
- Ligados
à via de administração do fármaco
- A
área da superfície absortiva à qual
o fármaco é exposto é um dos determinantes mais
importantes da velocidade de absorção. Em superfícies
com grandes áreas, o fármaco é absorvido com
maior rapidez; como exemplos temos o epitélio alveolar pulmonar
e a mucosa intestinal. A superfície absortiva é determinada
em grande parte pela via de administração.
- A
circulação no local de administração
também afeta a absorção do fármaco. O
aumento do fluxo sangüíneo, determinado por massagens,
ou aplicação local de calor, potencializa a velocidade
de absorção do fármaco. Por outro lado a diminuição
do fluxo sangüíneo determinado por vasoconstritores, choque
ou outros fatores patológicos, pode retardar a absorção.
B
- Ligados ao Fármaco
Independente
do local de administração, em solução aquosa,
os fármacos são absorvidos mais rapidamente do que aqueles
administrados em solução oleosa, suspensão ou forma
sólida, porque misturam-se mais prontamente à fase aquosa
no local da absorção. A velocidade de dissolução
pode ser um fator limitador da absorção dos fármacos
administrados em formas farmacêuticas sólidas, pois a solubilização
no meio de absorção é condição essencial
para a ocorrência do processo. A molécula de um fármaco
deve ter hidrossolubilidade suficiente para se dissolver nos líquidos
do local de absorção do organismo e lipossolubilidade
para atravessar a bicamada lipídica das membranas celulares pôr
difusão passiva. Podemos dizer que quanto maior a lipossolubilidade
de um fármaco melhor será seu processo de absorção,
desde que ele esteja dissolvido no meio de absorção. O
grau de lipossolubilidade ou hidrossolubilidade pode ser medido pelo
coeficiente de partição óleo/água ou lipídeo/água,
apresentado anteriormente.
Vários
fatores podem alterar a solubilidade de um fármaco em
seu local de absorção e, indiretamente, podem afetar este
processo:
1.
pH no local de absorção
Altera
a solubilidade da substância, especialmente no TGI. O ácido
acetilsalicílico (AAS) é um exemplo de fármaco
relativamente insolúvel em meio ácido-gástrico.
2.
Tamanho das partículas do fármaco
Fármacos
administrados na forma de partículas de tamanho reduzido, em
geral, dispersam-se mais rapidamente por toda a suprfície de
contato para absorção, o que favorece a velocidade de
dissolução e consequentemente o processo de absorção
do fármaco, especialmente se este é limitado pela dissolução.
As industrias vem utilizando amplamente pós micronizados (5,0
m m ou menor) em suas preparações sólidas.
No entanto, algumas vezes o decréscimo no tamanho das partículas
pode causar interferência no movimento das mesmas, trocas no potencial
elétrico, impermeabilização de suas ligações
por camadas moleculares de solvente e outras influências indesejáveis,
acarretando aumento das propriedades hidrofóbicas. Nestes casos,
pequenas partículas podem causar diminuição na
velocidade de dissolução.
3.
Forma cristalina ou amorfa
Muitas
substâncias ativas podem existir naturalmente em diferentes formas
cristalinas, propriedade conhecida como "polimorfismo" de
"Polimorfos" (diferentes formas cristalinas). Diferentes fármacos
também apresentam-se na natureza em forma não cristalina
ou amorfa, a qual não possui forma definida e são por
conseguinte irregulares em suas três dimensões.
O
caráter amorfo ou cristalino causa diferenças na difração
do raio X, densidade, ponto de fusão e o que interessa do ponto
de vista farmacêutico na solubilidade e velocidade de dissolução.
Desta forma, estes caracteres podem influenciar o processo de manipulação
industrial, estabilidade química e mesmo sobre sua atividade
biológica. Como exemplo, podemos citar a benzilpenicilina potássica
ou sódica que é inativa na forma amorfa e ativa em sua
forma cristalina.
A
falta de coesão das moléculas de um composto em seu estado
amorfo, normalmente, proporciona-lhe maior solubilidade que a estrutura
cristalina, pois necessita-se menor energia para separá-las.
4.
Hidratação
A
forma cristalina pode existir em diferentes estados, graus de hidratação,
solvatação. Quanto maior o grau de solvatação
no cristal, menor será sua solubilidade e a velocidade de dissolução
em solvente idêntico ao de solvatação das moléculas.
Assim, as substâncias hidratadas tem menor velocidade de dissolução
em água que as anidras. Quando o cristal solvatado é colocado
em solvente diferente ao de solvatação da molécula,
ocorre um aumento da solubilidade e velocidade de dissolução.
5.
Modificações na forma química
Modificações
na forma química dos fármacos podem influir em sua dissolução
e, consequentemente, no processo de absorção. Formação
de sais a partir de um fármaco, normalmente aumenta a solubilidade
do mesmo. Sais sódicos e potássicos de ácidos orgânicos
fracos e cloridratos de bases orgânicas fracas dissolvem-se muito
mais facilmente que as respectivas bases e ácidos livres. Por
exemplo, o fenobarbital sódico possui velocidade de absorção
aproximadamente 800 vezes maior que a do fenobarbital puro.
A
formação de éster, éteres e amidas com determinados
fármacos pode modificar a solubilidade dos mesmos, sem interferir
em suas propriedades farmacológicas, o que aumenta suas possibilidades
de aplicação. Além de melhorar a solubilidade da
substância, estas transformações podem também
melhorar sua estabilidade, caracteres organolépticos e prolongar
sua ação.
6.
Adjuvantes Farmacotécnicos ou Forma Farmacêutica
A
presença de adjuvantes nas diferentes formas farmacêuticas
que veiculam as substâncias ativas, podem interferir na dissolução
da mesma consequentemente em sua absorção. Diluentes,
desintegrantes, aglutinantes, estabilizantes, lubrificantes, são
exemplos destes adjuvantes. Nas formas farmacêuticas de uso oral
tem-se a seguinte ordem de liberação da substância
ativa para absorção:
Solução Xarope Suspensão Pó Cápsula
Comprimidos Drágeas
Ainda
em relação às formas farmacêuticas de uso
oral, as mais comumente usadas, devemos salientar também a diferença
entre as sólidas(comprimidos) e as líquidas, no que se
refere à etapa de desintegração, como visualizado
no esquema abaixo:
Comprimidos
Desintegração Dissolução Absorção
Solução
Dissolução no meio de absorção Absorção
Concentração
do fármaco
A
concentração do fármaco em seu local de absorção
influencia diretamente sua velocidade de absorção. Fármacos
administrados em soluções altamente concentradas são
absorvidos mais rapidamente do que aqueles administrados em soluções
de baixa concentração.
O
fármaco deve ser estável no líquido do local de
absorção para que esta ocorra sem problemas. Ex.: uma
substância que não resista a pH ácido (1-2) não
poderá ser administrada via oral, pois antes da absorção
ela se desintegrará, exemplos: insulina e penicilina G.
Peso
molecular influi no tamanho e volume da molécula do fármaco,
os quais devem ser compatíveis com a membrana a ser atravessada.
Moléculas grandes e volumosas tem sempre dificuldade de atravessar
membranas biológicas.
- Grau
de ionização do fármaco:
Como
já foi discutido o grau de ionização da substância
ativa é um importante fator interferente no processo de transporte
através de membranas e consequentemente no processo de absorção,
principalmente ao considerar-se a via de administração
oral.
De
uma forma geral podemos dizer que, uma vez solúvel no local de
absorção, o fármaco será melhor absorvido,
quanto menor for seu grau de ionização. O grau de ionização
de um eletrólito em solução aquosa é função
do pH do meio e do pKa da substância. Num pH acima do pKa um composto
ácido existe em solução principalmente na forma
iônica e as bases na forma molecular. Para qualquer eletrólito
fraco a fração ionizada, hidrossolúvel, é
responsável pela difusão através dos meios aquosos
(plasma, líquido intersticial, meio intracelular). Já
a fração não ionizada (lipossolúvel), é
a responsável pela difusão nos meios lipídicos.
De
tudo isto desprende a importância do pKa do fármaco, pois
é o que orienta, aliado ao pH do meio em que o fármaco
se encontra, seu grau de ionização, ou seja, quanto este
se apresenta na forma ionizada ou molecular, consequentemente mais ou
menos lipossolúvel. Através destas características
é possível o reconhecimento de seu perfil farmacocinético,
processos de absorção, distribuição, biotransformação
e excreção.
C.
Ligados ao indivíduo (paciente)
A
variabilidade biológica é um fator interferente da absorção
e, consequentemente no efeito terapêutico dos fármacos;
"ela desafia a mais precisa previsão físico-química".
Para
os fármacos administrados por via oral, em formas farmacêuticas
sólidas, como os comprimidos, podem ser citados fatores fisiológicos
ligados ao TGI que influenciam no processo de absorção
de fármacos.
1.
Efeito de líquidos lumiais
- pH:
interfere no grau de ionização
- Muco:
A mucina, mucopolisacarídeo que protege o epitélio,
pode atuar como barreira para absorção de certos fármacos,
geralmente catiônicos, originando compostos de elevado peso
molecular não absorvíveis.
- Presença
de sais biliares: Com seus componentes tensoativos e solubilizantes,
podem acelerar a dissolução de fármacos e, consequentemente,
o processo de absorção.
- Enzimas
e proteínas: Podem interagir com fármacos diminuindo
sua atividade
- Viscosidade
dos fluidos digestivos: Se elevada, influencia negativamente dificultando
a dissolução e consequentemente a absorção.
2.
Tempo de trânsito intestinal
- Esvaziamento
gástrico: O aumento da motilidade intestinal diminui o tempo
disponível para absorção do fármaco. Apesar
da teoria de partição, a maioria dos fármacos
são absorvidos no intestino, devido ao maior tempo de permanência
do fármaco neste órgão, em comparação
ao estômago e, principalmente devido a ampla superfície
de absorção deste órgão que é,
aproximadamente, 200 vezes maior que a do estômago; ácidos
fracos, são absorvidos na primeira porção do
intestino onde o pH é de aproximadamente 4,5-5,0. O rítimo
de esvaziamento gástrico pode ser alterado por : nervosismo,
hiperacidez, tipo de alimento presente e presença de outros
fármacos.
- Alimentos:
Podem formar complexos insolúveis com a substância ativa,
o que diminuiria sua absorção. Normalmente a presença
de alimentos dificulta a desintegração de formas farmacêuticas
sólidas, diminuindo a velocidade de dissolução
e influenciando o processo de absorção (diminuindo a
velocidade).
- Repouso
no leito e exercício : Diminui e aumenta o tempo de trânsito
intestinal, respectivamente.
- Circulação
entero-hepática: Retém o fármaco por mais tempo
no intestino/fígado, retardando sua eliminação.
3.
Metabolismo de primeira passagem: Diminui a quantidade de fármaco
biodisponível para ação.
4.
Condições patológicas: má absorção,
acloridria, tireotoxicose.
5.
Flora intestinal: Pode biodegradar alguns fármacos.
D.
Ligados à formulação
·
Propriedades da forma de apresentação
-
Tempo de desintegração
-
Velocidade de dissolução
-
Variáveis de fabricação como : Pressão de
compressão\secagem \mistura
-
Uniformização de matérias primas(não há
no Brasil = problema crítico)
-
Concentração dos adjuvantes; exemplo: lubrificante
-
Envelhecimento do produto
2.2.
Distribuição de fármacos no organismo
O
termo distribuição se refere à transferência
reversível do fármaco de um local a outro dentro do organismo.
Informações precisas da distribuição de
um fármaco requer seu doseamento a nível dos diferentes
tecidos. Estes dados tem sido obtidos em animais, mas são difíceis
de se obter em humanos. Desta forma, a maioria dos dados sobre velocidade
e extensão da distribuição de fármacos em
humanos, tem sido derivada de observações das variações
da concentração destes no soro ou plasma.
Depois
de absorvido ou injetado na corrente sangüínea o fármaco
pode distribuir-se para os líquidos intersticial e celular. Os
padrões de distribuição de um fármaco, refletem
alguns fatores fisiológicos, como fluxo sangüíneo
tecidual e características da membrana de transporte, bem como
de suas propriedades físico-químicas.
Quando
as características do fármaco propiciam sua fácil
passagem através da membrana endotelial, a velocidade de distribuição
depende da taxa de perfusão. Assim os fármacos se distribuem
mais rapidamente em tecidos altamente perfundidos, como o pulmão;
o contrário ocorre nos de baixa perfusão, como o músculo
em repouso.
Se
características do fármaco, como polaridade e grande peso
molecular, dificultam seu transporte através da membrana celular,
a velocidade de distribuição é limitada pela taxa
de difusão. A distribuição também pode ser
limitada pela ligação do fármaco às proteínas
do plasma, em especial à albumina para fármacos ácidos
e à a 1-glicoproteína
ácida no caso de fármacos de característica básica.
Uma substância ativa extensa e fortemente ligada à estas
proteínas tem pouco acesso a locais de ação intracelulares
e pode ser lentamente biotransformada e eliminada.
Os
fármacos podem acumular-se nos tecidos em concentrações
maiores que as esperadas a partir do equilíbrio estável
de difusão, como resultado dos gradientes de pH, da ligação
a componentes intracelulares ou da distribuição nos lipídeos.
O acumulo de um fármaco em determinado tecido, pode atuar como
um reservatório que prolonga sua ação nesse mesmo
tecido e em um local distante atingido pela circulação.
Em
relação à pequena diferença de pH entre
os líquidos intracelular e extracelular (7,0 vs. 7,4),
resulta em um gradiente de concentração também
relativamente pequeno do fármaco através da membrana plasmática.
As bases fracas concentram-se um pouco mais dentro das células,
enquanto a concentração dos ácidos fracos é
discretamente menor nas células do que nos líquidos extracelulares.
A queda do pH do líquido extracelular aumenta a concentração
de ácidos fracos dentro das célula e diminui a das bases
fracas, desde que o pH intracelular não se modifique também
e que a alteração do pH não afete simultaneamente
a ligação, a biotransformação ou a excreção
do fármaco; o aumento do pH determina, obviamente, efeitos opostos.
Como
a velocidade de distribuição de um fármaco no organismo
costuma ser menor que a de metabolização e excreção,
um pseudo-equilíbrio entre plasma e tecido é atingido
ao se completar a distribuição, mas a concentração
plasmática continua a diminuir graças à eliminação.
Um verdadeiro equilíbrio pode ser estabelecido durante a infusão
contínua de fármacos.
- Ligação
à proteínas plasmáticas e teciduais
Fármacos
ao alcançarem a circulação sangüínea
podem se ligar, em diferentes proporções às proteínas
plasmáticas. Essa ligação é uma medida da
afinidade do fármaco pelas proteínas do plasma, especialmente,
como já foi citado, pela albumina e alfa-1-glicoproteína
ácida. Também pode haver ligação com proteínas
das membranas dos eritrócitos, lipoproteínas circulantes,
leucócitos, plaquetas e as transportadoras específicas,
como a globulina transportadora de tiroxina e a transferrina. Os sítios
receptores de fármacos em todas estas proteínas, são
chamados "receptores silenciosos", pois sua interação
com aqueles não gera efeitos biológicos.
Uma
vez que as proteínas não passam através das paredes
capilares, a ligação do fármaco à proteínas
pode retê-lo no espaço vascular por um determinado tempo.
A fração do fármaco não ligado é
que atravessará as membranas tornando-se disponível para
interações com receptores, ou seja, é ela que exercerá
o efeito farmacológico sendo, assim, chamada de fração
farmacologicamente ativa. Já a fração ligada é
considerada farmacologicamente inerte.
Porém,
a interação do fármaco com a proteína plasmática
é um processo rapidamente reversível e, à medida
que o fármaco não ligado difunde-se dos capilares para
os tecidos, mais fármaco ligado dissocia-se da proteína
até que seja alcançado um equilíbrio, onde há
concentrações relativamente constantes de forma ligada
e não ligada. É uma interação dinâmica,
em que complexos continuamente se formam e se desfazem. Valores de ambas
as formas podem variar de 0,0 a 1,0 (0 a 100%), dependendo da extensão
da ligação.
O
complexo fármaco-proteína age como um reservatório
temporário na corrente sangüínea retardando a chegada
de fármacos aos órgãos alvo e sítios de
eliminação. Quando a ligação à proteína
ocorre fortemente (fração livre < 0,1), ela pode diminuir
a intensidade máxima de ação de uma dose única
de um fármaco, por diminuir a concentração máxima
atingida no receptor, alterando, assim sua resposta clínica;
reciprocamente, a diminuição da ligação
pode aumentar a intensidade de ação do fármaco.
Quanto aos fármacos com fração livre maior que
0,25% , as conseqüências da ligação protéica
são pouco importantes.
Os
sítios protéicos de ligação de fármacos
no plasma são passíveis de saturação. A
medida que a concentração do fármaco aumenta, também
pode aumentar sua forma livre, porque a capacidade de ligação
pode estar saturada. No entanto, numa ampla margem de concentrações,
a fração livre não se altera porque há abundância
de sítios de ligação; a saturação
na verdade só ocorre em concentrações muito altas,
clinicamente irrelevantes.
A
relação entre fração livre/fração
ligada pode ser influenciada por situações onde ocorre
variações nas concentrações das proteínas
plasmáticas, podemos citar as situações de hipoalbuminemia
por cirrose, síndrome nefrótica, desnutrição
grave e uremia; na gestação, em que há hemodiluição
e em idosos, onde, muitas vezes por menor capacidade de produção
de proteínas, o teor de ligação a fármacos
torna-se menor.
Fármacos
podem competir entre si pelos sítios de ligação
protéica, sendo deslocado o que tem menor afinidade pelos mesmos,
ficando, consequentemente, com a fração livre aumentada
no plasma. Também pode ocorrer que ao ligar-se à proteína
altere a estrutura terciária desta, alterando, assim, a afinidade
da proteína por outras substâncias. O ácido acetilsalicílico(AAS),
por exemplo altera a ligação de fármacos à
albumina através da acetilação do resíduo
lisina da molécula de albumina. Isto modifica a ligação
de algumas substâncias ativas ácidas, como a fenilbutazona
e o ácido flufenâmico. Estes mecanismos resultam num aumento
da fração livre do fármaco deslocado. Assim, o
deslocamento de 1% da ligação protéica de um fármaco
que liga-se 99% à proteína, terá duplicada a percentagem
da fração livre, farmacologicamente ativa, podendo por
isso ocorrer um aumento de sua atividade farmacológica. Em geral,
podemos dizer que a importância quantitativa e clínica
do deslocamento das proteínas plasmáticas depende da quantidade
total de fármaco ligado à proteína, be3m como de
seu índice terapêutico.
A
competição por locais de ligação não
ocorre apenas entre fármacos, mas também entre fármacos
e ligantes endógenos. Hormônios, por exemplo, podem ser
deslocados de suas proteínas carreadoras por fármacos,
porém, normalmente, sem importância clínica. Já
o deslocamento de bilirrubina da ligação protéica
no neonato, conseqüente à administração de
sulfonamidas, é de importância clínica porque altos
níveis de bilirrubina daí resultantes são capazes
de atravessar a barreira hematoencefálica imatura, provocando
icterícia (Kernicterus) e lesão cerebral.
Diferenças
individuais na ligação à proteínas podem
ocorrer, o que pode contribuir significativamente para a variabilidade
na resposta clínica à fármacos. Por exemplo, a
fração livre de imipramina no plasma de pacientes deprimidos
varia de 5,4 a 21,0% o que pode explicar uma das dificuldades de correlacionar
os níveis plasmáticos de antidepressivos com a resposta
clínica. As diferenças interindividuais estão parcialmente
sob o controle genético, podendo porém ser afetadas por
patologias e idade.
Os
fármacos também podem interagir com moléculas intra
e extracelulares, como as proteínas de membrana celulares, ácidos
nucleicos, polipeptídeos e polisacarídeos. Estas ligações
podem igualmente influenciar a distribuição.
- Compartimento
farmacocinético e Volume de distribuição
Como
já foi dito, em humanos, geralmente, não é possível
determinar quantitativamente a distribuição de um fármaco
nos diversos tecidos; assim o que normalmente se faz é acompanhar
a concentração do fármaco no sangue ou plasma,
considerando a existência de uma relação constante
entre as quantidades do fármaco no plasma e no restante do organismo
após a completar-se a distribuição.
O
conceito de compartimento em farmacocinética é
essencial e foi desenvolvido para fornecer as bases para quantificação
dos processos farmacocinéticos; ele representa uma maneira simplificada
mas extremamente útil na abordagem dos processos de distribuição
dos medicamentos no organismo.
O
compartimento é um espaço imaginário matemático,
usualmente representado na literatura farmacológica como uma
"caixa" reservatório; quando o medicamento é
introduzido em um compartimento ele é rapida e homogeneamente
distribuído em todo o espaço. Os compartimentos são
freqüentemente designados como compartimento "vascular"
ou compartimento "tecidual", mas estas correlações
são frágeis e não devem ser literalmente aceitas.
A estes compartimentos também podem ser atribuídos volumes
reais (em litros, por exemplo), mas estes volumes também são
fictícios e não correspondem ao volume real de nenhum
dos tecidos ou órgãos corporais. Devemos sempre ter em
mente que a interpretação dos modelos farmacocinéticos
devem ser feitos com cautela, por serem derivados de modelos matemáticos
e não da anatomia e fisiologia.
O
processo de distribuição de um fármaco pode ser
quantificado, através do conceito de compartimento através
do volume de distribuição, que avalia a
extensão da distribuição da substância ativa,
além do plasma. Assumindo que o corpo consiste de um único
compartimento ( veremos mais tarde, em um tópico à parte,
que também podemos considerar a existência de dois ou mais
compartimentos), e conhecendo-se a dose administrada por via endovenosa
e sua concentração dosada no sangue, o volume do compartimento,
denominado "volume aparente de distribuição"
(Vd), pode ser determinado por substituição nos
termos da equação que se segue:
Concentração
= Quantidade que se torna Volume = Quantidade
Volume
Concentração
Assim,
Vd
= D onde: D = Dose e C = Concentração
Então,
o volume de distribuição é simplesmente uma constante
de proporcionalidade fictícia, um conceito matemático,
utilizado para explicar as concentrações observadas dos
medicamentos com base na quantidade de fármaco conhecida presente
no organismo. Ele fornece uma estimativa da extensão do tecido
extravascular que faz a captação dos medicamentos; descreve
a relação entre a quantidade de fármaco em todo
o organismo e a quantidade existente no plasma. Domingues, criador deste
conceito define-o como o volume no qual o fármaco deve dissolver-se
para que sua concentração se iguale a do plasma. Nesta
definição a concentração plasmática
do fármaco é aquela observada após a absorção
e distribuição e antes da eliminação. Quando
Vd é pequeno, a captação pelos tecidos é
limitada; já valores grandes para Vd, indicam uma ampla distribuição
para os tecidos. Como muitos fármacos são relativamente
lipofílicos, a captação tecidual é extensa,
e grandes volumes de distribuição são comuns.
A
determinação do Vd de diversos fármacos, em litros,
mostra, muitas vezes números irreais, quando comparados ao volume
real de distribuição do organismo, representado
pelo volume de água corporal total, 60% do peso corporal de um
indivíduo. Considerando-se um homem padrão de 70 kg, teremos
um volume real total aproximado de 42-43 litros de líquido corporal;
sendo 2-3 litros de plasma, 12 litros do líquido intersticial
e 28 litros do líquido intracelular. No entanto, ao relacionarmos
o volume de distribuição aparente de um fármaco
com o volume real de distribuição do organismo, teremos
uma previsão da distribuição deste fármaco
(Tabela 3). Volumes de distribuição muito grandes, como
o do diazepam (tabela 4) que é 140 litros, indicam que este fármaco
possui grandes concentrações teciduais (por acúmulo
em tecido adiposo) em comparação com a concentração
plasmática.
Tabela
3 - Provável relação existente entre Vd e local
distribuição no organismo
|
Vd calculado (Litros)
|
Provável
local de distribuição
|
|
3-5
|
Plasma Sistema circulatório
|
|
10-20
|
Fluido extracelular
|
|
25-30
|
Fluido intracelular
|
|
40-70
|
Fluido total do organismo
|
|
> 70
|
Acúmulo em
território extravascular
|
A
tabela 4 mostra exemplos dos volumes de distribuição aparente
para três agentes ansiolíticos da classe dos benzodiazepínicos
para um mesmo indivíduo pesando 70 Kg, baseado nos dados representativos
de estudos clínicos em que utilizou-se uma única dose.
Para tornar estes volumes mais aplicáveis, eles são usualmente
corrigidos para o peso corporal e expressos em unidades de litro/Kg.
Tabela
4 Volumes de distribuição de três benzodiazepínicos
após dose única(DU) IV.
|
Fármaco
Ansiolítico
|
Dose intra-venosa
(mg)
|
Concentração
sangüínea após administração
estar completa (m g/ml)
|
Volume aparente
de distribuição (Vd)
(Litros)
|
Volume aparente
de distribuição (Vd)
Corrigido pelo
peso(L/Kg)
|
|
Clordiazepóxido
|
0,05
|
1,80
|
28
|
0,4
|
|
Lorazepam
|
2,0
|
28,6
|
70
|
1,0
|
|
Diazepam
|
10,0
|
71,4
|
140
|
2,0
|
É
importante enfatizar que os valores tabelados de Vd, são normalmente
valores médios. Como outros valores biológicos os valores
de Vd para um dado fármaco podem variar consideravelmente de
uma pessoa para outra, e podem ser também influenciados por fatores
como os listados na tabela 1. Além disso, também deve
ser claro o fato de quer o conhecimento do Vd não fornece nenhuma
informação específica sobre sítios de distribuição.
Os sítios anatômicos de distribuição somente
podem ser determinados por análises diretas das concentrações
nos tecidos, as quais, por sua vez só são usualmente possíveis
em estudos em animais.
Em
farmacocinética clínica, o Vd é um importante parâmetro,
empregado para determinação de doses e intervalos de doses
dos medicamentos.
- Meia-vida
biológica (t1/2)
A
meia-vida é um conceito cronológico e indica o tempo em
que uma grandeza considerada reduz à metade de seu valor. Em
farmacocinética ela representa o tempo gasto para que a concentração
plasmática ou a quantidade original de um fármaco no organismo
se reduza à metade. A cada intervalo de tempo correspondente
a uma meia-vida, a concentração decresce em 50% do valor
que tinha no início do período. Esse conceito é
operacionalizado pela observação da concentração
no plasma . Para a maioria dos fármacos, a meia vida é
constante em uma larga faixa de concentrações. Já
o termo vida-média exprime a duração média
da concentração e não sua meia vida.
O
tempo de meia-vida ou t1/2 é um importante parâmetro
farmacocinético. A caracterização de um evento
farmacocinético pelo valor da meia vida possibilita uma estimativa
da rapidez com que o processo ocorre, originando dados importantes para
a interpretação dos efeitos terapêuticos ou tóxicos
dos fármacos, da duração do efeito farmacológico
e do regime posológico adequado.
O
conhecimento do t1/2 também é de grande utilidade
para se conseguir alcançar a concentração plasmática
média no equilíbrio (Css), após doses
repetidas em intervalos que representam a meia-vida; a Css
é a concentração do estado de equilíbrio,
orientadora do regime posológico e é obtida quando se
administra um medicamento em doses repetidas, a intervalos regulares.
Tal repetição, permite a manutenção desse
platô de concentração constante, por reposição
da parte do fármaco que esta sendo eliminado. Diz-se que a concentração
do estado de equilíbrio (Css ) é alcançada
após 4-6 intervalos de meia-vida; o paciente alcançará
50% de equilíbrio dinâmico após uma meia vida do
fármaco, 75% de equilíbrio dinâmico após
duas meias-vidas, 87,5% após três meias vidas e 94% após
quatro meias-vidas (Figura 4)
A
mais importante meia-vida em farmacocinética é aquela
que descreve o processo de eliminação ou remoção
do fármaco do corpo. Esta "meia vida de eliminação",
freqüentemente abreviada na literatura como t1/2b , indica
como será a velocidade de desaparecimento do fármaco após
administração de uma dose única ou após
o término de um longo período de terapia; normalmente
esta também ocorre em um período de tempo que varia de
4 a 6 meias-vidas do fármaco.
Também
aqui é necessário lembrar que os valores tabelados de
t1/2 (como os de Vd) são usualmente valores médios
representativos, que como outros eventos fisiológicos e farmacocinéticos
irão variar de pessoa para pessoa e podem ser influenciados por
muitos fatores , como os listados na tabela 1. O t1/2 para
um dado fármaco pode variar temporalmente mesmo em um mesmo indivíduo.
2.3.
eliminação de fármacos
Os
fármacos são reconhecidos como substâncias estranhas
ao organismo, devendo ser eliminados após exercer sues seus efeitos
terapêuticos. Os principais processos que determinam o fim de
efeito dos fármacos são biotransformação
hepática e excreção renal.
Excluindo-se
o pulmão os órgãos excretores eliminam os compostos
polarizados mais eficientemente que as substâncias com alta lipossolubilidade,
assim os fármacos lipossolúveis não são
prontamente eliminados até serem biotransformados em compostos
mais polarizados.
A
biotransformação contribui muito para eliminação
final de fármacos do organismo. Poucas substâncias ativas
são eliminadas quase totalmente inalteradas pelos rins. Alguns
fármacos são excretados via bile; outros, particularmente
substâncias voláteis, são excretados com a expiração.
Contudo, para maioria dos fármacos a excreção é
feita via renal.
2.3.1.
Biotransformação de fármacos
A
biotransformação submete o fármaco a reações
químicas, geralmente mediadas por enzimas, que o converte em
um composto diferente do originalmente administrado (metabólito).
As reações mais comuns da biotransformação
de fármacos são oxidação, redução,
hidrólise e conjugação ou acetilação.
Freqüentemente, a mesma substância pode sofrer biotransformação
por diversas vias competitivas; a fração de formação
de cada um dos metabólitos é dependente da velocidade
relativa de cada uma destas vias. Um metabólito pode, por sua
vez, também sofrer biotransformação; por exemplo,
oxidação, redução e hidrólise são
freqüentemente seguidas de uma reação de conjugação.
Estas reações ocorrem em série e são ditas
seqüenciais; didaticamente, as reações de oxidação,
redução e hidrólise, são classificadas como
de fase I as de conjugação e acetilação,
como de fase II do processo de biotransformação.
Conjugações se fazem normalmente com ácido glicurônico
e sulfúrico e podem ocorrer sem reações da fase
I. já a velocidade das acetilações depende de traço
herdado que se denomina "fenótipo acetilador"; a toxicidade,
sobretudo hepática, tende a ser maior nos acetiladores lentos,
entretanto o efeito terapêutico não costuma ser diferente
entre acetiladores rápidos ou lentos.
Geralmente,
o fígado é o maior e algumas vezes o único sítio
de biotransformação de fármacos; ocasionalmente
o fármaco é biotransformado em outros tecidos como os
rins, pele, pulmões, sangue e trato gastrintestinal. Várias
destas reações ocorrem no retículo endoplasmático
do fígado e de alguns outros tecidos; após homogeneização
destes tecidos, o retículo endoplasmático é rompido,
formando-se pequenas vesículas denominadas microssomas.
Por esta razão, enzimas biotransformadoras do retículo
endoplasmático são chamadas enzimas microssomais; desta
forma a biotransformação de fármacos pode ser classificada
como microssomal e não microssomal. Dentre as enzimas não
microssomais que participam da biotransformação de fármacos
podemos citar a diaminoxidase (DAO) e monoaminoxidase (MAO), ambas de
origem mitocondrial e ligadas às membranas, que desaminam oxidativamente
aminas primárias, aldeídos ou cetonas; e estearases solúveis
presentes no plasma, que catalisam reações hidrolíticas.
As
principais enzimas microssomais responsáveis por oxidação
e redução de fármacos pertencem à superfamília
de enzimas do citocromo P450. Esta superfamília cataliza uma
ampla variedade de reações oxidantes e redutoras e exerce
atividade contra um grupo de substrato quimicamente diferentes; o único
aspecto estrutural comum do grupo diverso de xenobióticos oxidados
pelas enzimas do citocromo P450 é sua grande lipossolubilidade.
Foram identificadas 12 famílias de genes do citocromo P450 nos
seres humanos, e, com freqüência, existem várias enzimas
do citocromo P450 em uma única célula. As famílias
do citocromo P450 dividem-se em subfamílias, que possuem semelhança
superior a 55% em suas seqüências de proteínas individuais.
As famílias 1,2 e 3 de citocromo P450 (CYP1, CYP2 e CYP3) codificam
as enzimas que participam na maioria das biotransformações
de fármacos em humanos. Como resultado da especificidade por
substrato relativamente pequena entre as proteínas do citocromo
P450, duas ou mais enzimas geralmente podem catalisar uma determinada
reação de biotransformação. A CYP3A4 participa
da biotransformação na maioria dos fármacos e expressa-se
em níveis significativos fora do fígado.
São
várias as conseqüências da biotransformação
de fármacos; ela é um mecanismo através do qual
o organismo se desfaz de compostos estranhos e fármacos (xenobióticos);
consiste em carregar eletricamente o fármaco para que, ao passar
pelos túbulos renais, não seja reabsorvido, ou ainda torná-lo
polar, hidrossolúvel, capaz de ser excretado. Esse processo,
em geral, inativa o fármaco, pois, além de modificar pontos
fundamentais de sua estrutura, diminui a possibilidade de que chegue
aos tecidos susceptíveis. A biotransformação de
fármacos e outros xenobióticos em metabólitos mais
hidrofílicos é, portanto, essencial para o término
de sua atividade biológica, bem como para sua eliminação.
A
biotransformação também pode ser um meio de produção
de compostos ativos. São conhecidos inúmeros exemplos
onde o fármaco administrado (denominado "pró-fármaco")
é um produto inativo, o qual é, in vivo, convertido
na forma farmacologicamente ativa. Freqüentemente, a biotransformação
pode também originar metabólitos ativos. A duração
e a intensidade da resposta variam com o tempo de duração
destas substâncias no organismo. Assim, para a terapêutica
é de extrema importância tanto a farmacocinética
dos compostos administrados, quanto a de seus metabólitos ativos.
Segue abaixo, como exemplo, a rota de biotransformação
do diazepam, um benzodiazepínico de longa meia vida (~ 48 horas)
e metabólitos intermediários ativos. Vários outras
rotas, são apresentadas na bibliografia recomendada.
Diazepam N-desalquilação Desmetildiazepam
Hidroxilação
(ativo) (ativo) Alifática
Oxazepam
glicuronídeo Conjugação Oxazepam
(inativo) (ativo)
A
biotransformação de alguns fármacos pode ser influenciada
pela via de administração. Fármacos administrados
por via oral ganham acesso à circulação sistêmica
quase sempre pelo sistema porta hepático, primeiro apresentador
do fármaco ao fígado. Assim, a totalidade de uma dose
de fármaco administrado por esta via durante o processo de absorção,
é exposta ao fígado durante sua primeira passagem pelo
organismo; se este fármaco está sujeito a uma elevada
depuração hepática (é rapidamente metabolizado
pelo fígado) uma fração substancial da mesma pode
ser extraída do sangue portal e biotransformada antes de alcançar
a circulação sistêmica. Isto é conhecido
como metabolismo ou efeito de primeira passagem e pode ocasionar em
uma perda significativa na biodisponibilidade do fármaco. O próprio
trato gastrintestinal pode também proporcionar a biotransformação
de fármacos ao colocá-lo em contato com enzimas; é
o exemplo da grande biotransformação realizada pela CYP3A4
neste local, que hoje sabemos contribuir para a péssima biodisponibilidade
por via oral de muitos fármacos.
A
capacidade de biotransformação de fármacos pode
ainda ser alterada ou influenciada por fatores fisiológicos como
idade (principalmente períodos neonatal e senil) gestação
e sexo; fatores patológicos como a cirrose, hepatite, insuficiência
cardíaca desnutrição e alcoolismo; fatores genéticos,
como o polimorfismo geneticamente determinado que classificam indivíduos
como metabolizadores rápidos ou lentos; fatores ambientais, como
a exposição a poluentes; e por fim o uso concomitante
de outros fármacos, que proporciona a ocorrência de indução
e inibição enzimática, importante tipo de interações
medicamentosas farmacocinéticas ao nível da biotransformação
de fármacos e por isto estão comentadas abaixo.
Certos
fármacos induzem um aumento da síntese de proteínas.
Esta indução determina maior velocidade de biotransformação
e reduções correspondentes na disponibilidade do próprio
fármaco indutor ou de outro fármaco, que esteja sendo
administrado concomitantemente e utilize a mesma via; aqui, um exemplo
bem caracterizado é a auto-indução com o anticonvulsivante
carbamazepina. A aceleração da biotransformação
do fármaco pode acarretar redução em intensidade
e duração da resposta aos fármacos; ou, por outro
lado pode associar-se ao aumento da toxicidade no caso dos fármacos
que são metabolizados a formas ativas ou tóxicas.
De
maneira geral indutores são específicos para determinada
família do citocromo P450. Podemos citar os glicocorticóides
e anticonvulsivantes para a família CYP3A4 e a isoniazida, a
acetona e o consumo crônico de etanol para a CYP2E1. Muitos indutores
de citocromo P450s, também induzem enzimas envolvidas em biotransformações
da fase II como as glicuronosil transferases e as glutation transferases.
A
inibição de enzimas que participam na biotransformação
resulta em níveis elevados do fármaco original, efeitos
farmacológicos prolongados e maior incidência da de toxicidade
do fármaco, principalmente durante administração
crônica. A competição de dois ou mais fármacos
pela pelo local ativo da mesma enzima pode diminuir a biotransformação
de um destes agentes, dependendo das concentrações relativas
de cada substrato e de suas afinidade pela enzima.
A
cimetidina e o cetoconazol são exemplos clássicos inibidores
de reações oxidativas de biotransformação,
por formarem um complexo muito forte com o ferro hêmico do citocromo
P450. A depleção de co-fatores necessários à
atividade de algumas enzimas da fase II, é um mecanismo comum
de inibição enzimática.
2.3.2.
Excreção de fármacos
Como
foi mencionado acima, a eliminação dos fármacos
pode ser realizada por biotransformação ou excreção,
sendo que a maioria deles passam por ambos os processos. Por excreção
se entende a passagem dos fármacos da circulação
sangüínea para o meio externo; é através deste
processo que os compostos são efetivamente removidos do organismo.
As leis gerais de passagem através de membranas, também
aqui se aplicam, só que em sentido contrário ao dos processos
de absorção e distribuição.
Os
órgãos de excreção de fármacos são
denominados vias de excreção ou emunctórios e incluem
os rins, pulmões, suor, glandulas lacrimais e salivares, mama(leite
materno) e tubo digestivo (fezes e secreção biliar); destes
o rim se destaca nesta função e, os demais, afora os pulmões
para as substâncias voláteis, são quantitativamente
menos importantes.
As
substâncias ativas excretadas nas fezes, são ingeridos
por via oral e em grande parte não absorvidos pelo trato gastrintestinal
ou são metabólitos excretados ativamente pelo fígado
através da bile e não reabsorvidos pelo circuito êntero-hepático;
a reintrodução da substância ativa na circulação
sistêmica por este circuito pode prolongar seus efeitos. Pela
via biliar normalmente são excretados fármacos de alto
peso molecular, os muito polares e aqueles que são ativamente
englobados em micelas de sais biliares, colesterol e fosfolipídeos.
A
excreção de fármacos no leite materno é
importante porque pode produzir efeitos farmacológicos indesejados
no bebê em sua fase de amamentação. Já a
excreção pulmonar, por sua vez, é importante na
eliminação dos gases e vapores anestésicos.
Os
mecanismos que asseguram a excreção renal de fármacos
são os mesmos que intervém na formação da
urina; papel este que, como sabemos, é função do
néfron, unidade anatomofisiológica dos rins. Estes mecanismos
compreendem a filtração glomerular, a secreção
tubular ativa e a reabsorção tubular passiva.
Em
um primeiro momento o fármaco é filtrado ou secretado
para a luz tubular; em um próximo passo, podem ser eliminados
com a urina ou reabsorvidos ativa ou passivamente, pelo epitélio
tubular.
A
quantidade de fármaco que entra na luz tubular por filtração,
bem como a velocidade com que ocorre este processo, depende de sua fração
ligada à proteína plasmática, da taxa de filtração
glomerular e fluxo plasmático renal. Já a secreção
tubular ativa não é afetada pelo teor de ligação
a proteínas plasmáticas, é um transporte mediado
por carreadores que apresenta alta velocidade, podendo ser saturável.
Muitas substâncias de caráter ácido são transportadas
por um sistema que secreta substâncias de ocorrência natural,
como o ácido úrico; Já as bases orgânicas,
são transportadas por um outro sistema que secreta bases endógenas
como a histamina; assim pode ocorrer competição entre
ácidos ou entre bases orgânicas pelo sítio de ligação
de seu carreador; por exemplo a probenicida retarda a excreção
urinária da benzilpenicilina, o que aumenta sua vida média
no organismo e consequentemente a duração de seu efeito
farmacológico. Ambos os sistemas de transporte podem ser bidirecionais,
entretanto, o transporte de substâncias exógenas é
predominantemente secretor.
A
reabsorção tubular renal de ácidos e bases
fracas em suas formas não ionizadas (lipossolúveis), se
processa por difusão passiva a nível dos túbulos
proximal e distal, sendo potencialmente bidirecional; porém como
a água é progressivamente abstraída do lúmen
tubular ao longo do néfron, o aumento da concentração
intralumial do fármaco cria um gradiente de concentração
para retrodifusão. Este mecanismo é influenciado pelas
propriedades físico-químicas do fármaco e pH urinário.
Ácidos orgânicos fracos, por não se dissociarem
em pH ácido, são reabsorvidos; podemos acelerar sua excreção
alcalinizando a urina, o que converte-os em formas ionizadas não
livremente difusíveis. A alcalinização da urina
teria efeito oposto na excreção de bases fracas. Estes
artifícios podem ser utilizados, como já comentado, em
casos de intoxicação.
Fatores
fisiológicos ou patológicos que aterem a função
renal, influenciam decisivamente a excreção de fármacos
por esta via. Em presença de insuficiência renal, fármacos
e metabólitos ativos excretados fundamentalmente pelo rim podem
acumular-se, ocasionando efeitos tóxicos. Para evitar tal ocorrência,
são necessários ajustes nos esquemas terapêuticos.
O fator idade figura entre os fatores fisiológicos, como um dos
principais interferentes na excreção renal de fármacos.
Em recém-nascidos e prematuros, a filtração glomerular
e o fluxo plasmático renal são aproximadamente 30 a 40%
inferiores aos dos adultos, somente aproximando-se a estes aos três
meses de idade, logo a cinética dos fármacos nestas crianças
será totalmente diferenciada, devendo ser levada em conta nos
regimes terapêuticos de substâncias administradas no período
pós-natal.
Clearance
é um termo inglês usado universalmente para indicar a remoção
completa de determinada substância de um volume específico
de sangue na unidade de tempo. Depuração, é o termo
em português que mais se aproxima do sentido do termo inglês.
No
nível mais simples, a depuração de um fármaco
do organismo pode ser compreendida como a taxa de eliminação
por todas as vias, normalizada para a concentração do
fármaco (C) em um líquido biológico:
Depuração
= Taxa de eliminação/C
Os
princípios de depuração dos fármacos são
semelhantes àqueles da fisiologia renal, onde, por exemplo a
depuração da creatinina é definida como a taxa
de eliminação da creatinina na urina em relação
à sua concentração no plasma.
É
importante notar que a depuração não indica a quantidade
do fármaco que está sendo removida, mas, em vez disso,
o volume do líquido biológico, como o sangue ou o plasma,
do qual fármaco teria sido totalmente removido. O clearance é
expresso em volume por unidade de tempo (ml/min ou L/h).
A
depuração por vários órgãos de eliminação
é aditiva. A eliminação de um fármaco pode
ser o resultado de processos que ocorrem no rim, fígado e outros
órgãos. A divisão da taxa de eliminação
por cada órgão pela concentração plasmática
do fármaco, por exemplo, fornece as respectivas depurações
em cada um destes órgãos; estas quando somadas representam
a depuração sistêmica total.
Cl
Total = Cl renal + Cl hepático
+ Cl outros*
*Refere-se
a vias de excreção como lágrimas, saliva suor e
fezes
Quando
o fármaco é parcial ou totalmente excretado pelos rins
sem sofrer alterações, o clearance renal pode ser calculado
dividindo-se a velocidade de excreção urinária(mg/min)
pela sua concentração sangüínea(mg/ml). O
clearance de creatinina é um índice da função
renal porque esta substância endógena sofre filtração
glomerular completa e sua secreção e reabsorção
tubulares são mínimas; desta forma pode também
ser utilizado na avaliação do clearance renal de fármacos.
III.
Biodisponibilidade de fármacos
início
O
tema biodisponibilidade de fármacos merece destaque especial
em nosso estudo, tendo em vista que, segundo Lei n0
9.787 de 10/02/99 e Resolução n0 391
de 09/08/99 (publicada no Diário oficial da União(DOU)
de 10/08/99 e que regulamenta a referida lei), a implantação
do uso de medicamentos genéricos em nosso país é
"prioridade política de medicamentos do Ministério
da Saúde" e, tendo também em conta, a necessidade
de assegurar a qualidade, eficácia e segurança destes
medicamentos, garantindo sua intercambialidade com o medicamento referência.
A
biofarmácia, como já exposto, é uma disciplina
voltada à determinação da variabilidade da ação
farmacológica como conseqüência dos aspectos ligados
à formulação e processo tecnológico dos
medicamentos; ela não se ocupa da atividade do fármaco
em si, mas do modo com que ele é introduzido no organismo. Seu
objetivo final é de escolher as condições de administração
em função da disponibilidade fisiológica da substância
ativa, uma vez que, sua atividade farmacológica depende principalmente
da quantidade do fármaco disponível para absorção
e para atingir seu sítio receptor. Em suma, a principal função
da biofarmácia é a determinação, interpretação
e modulação da disponibilidade biológica (biodisponibilidade)
dos medicamentos, objetivando a melhor forma farmacêutica para
efeito terapêutico máximo.
A
biodisponibilidade, é uma característica do medicamento
administrado à um sistema biológico intacto e indica,
simultaneamente, segundo que cinética e segundo que proporção
um fármaco alcança a circulação geral a
partir da dose contida no medicamento administrado. A partir deste conceito,
podemos observar que a biodisponibilidade compreende dois aspectos distintos
e importantíssimos: velocidade e intensidade.
O estudo da biodisponibilidade, portanto, consiste em uma avaliação
das características quantitativas e cinéticas de um medicamento
administrado a um organismo concreto, excluindo a utilização
de estudos in vitro.
A
noção de disponibilidade da substância ativa a partir
de um medicamento nasceu da observação de não-eqüivalência
terapêutica entre formulações contendo o mesmo fármaco,
em um mesmo teor e forma farmacêutica, até então
consideradas substituíveis. Vários incidentes (ineficácia)
ou acidentes (toxicidade) foram a causa desta observação.
Em
1968-69, apareceram vários comunicados a respeito de uma epidemia
de intoxicação por anticonvulsivantes em epilépticos
australianos. O surto foi investigado em Brisbane, onde todos os pacientes
afetados estavam tomando um medicamento à base de fenitoína
e nos quais a redução da dose aboliu os sintomas. Observou-se
que o excipiente nas cápsulas de fenitoína implicadas
havia sido mudado de sulfato de cálcio para lactose alguns meses
antes do surto, e que tal mudança podia resultar numa biodisponibilidade
alterada do fármaco e, consequentemente, em toxicidade.
Em
1971, pesquisadores filandeses mostraram que os níveis sangüíneos
de digoxina, resultantes da administração contínua
de dois preparados comerciais eram pronunciadamente diferentes, com
as disparidades sendo suficiente para intoxicar alguns pacientes, supostamente
recebendo uma quantidade da preparação com maior biodisponibilidade,
equivalente a uma dose anteriormente demonstrada como suficiente para
a manutenção. Aproximadamente na mesma época, uma
mudança aparentemente pequena no processo de fabricação
do Lanoxin (preparação de digoxina feita na Inglaterra
pela Wellcome) resultou em perda de potência conseqüente
à baixa biodisponibilidade. Essas alterações chamaram
a atenção para a não equivalência dos comprimidos
de digoxina disponíveis no Reino Unido e alertaram os médicos
para a toxicidade potencial do tratamento com diferentes formulações
de digoxina. Sabe-se hoje, que as marcas de digoxina variam pronunciadamente
entre si e, até mesmo, de um lote para o outro quando da mesma
fabricação.
Com
os exemplos supracitados, percebemos que a origem dos estudos de biodisponibilidade,
deu-se a partir de relatos de problemas de ineficácia ou toxicidade
com o uso de determinados medicamentos que, até então,
eram tidos como substituíveis. Desde então, estudos no
sentido de garantir ao paciente eficácia terapêutica vem
sendo amplamente realizados a nível mundial. Em nosso país,
nos últimos dois anos, trabalhos tem sido efetivamente realizados
pelo Governo Federal neste sentido, através de seus órgãos
competentes como a agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVS); bem como no sentido de garantir ao paciente um menor custo do
medicamento.
Alguns
conceitos básicos, importantes para compreensão dos estudos
de biodisponibilidade, são freqüentemente confundidos ou
trocados e, por isto, devem aqui ser esclarecidos; segundo Resolução
n0 391 de 09/08/99:
- Equivalentes
farmacêuticos - São medicamentos contendo a mesma
substância ativa, na mesma quantidade e forma farmacêutica.
Devem cumprir com as mesmas especificações atualizadas
da Farmacopéia Brasileira e, na ausência destas, com
a de outros códicos autorizados pela legislação.
- Alternativas
farmacêuticas - São medicamentos contendo a mesma
substância ativa ou seu precursor, mas não necessariamente
na mesma quantidade ou forma farmacêutica. Devem cumprir com
as mesmas especificações atualizadas da Farmacopéia
Brasileira e, na ausência destas, com a de outros códicos
autorizados pela legislação. Ex. fenacetina e paracetamol.
- Medicamentos
bioequivalentes - Medicamentos equivalentes farmacêuticos
ou alternativas farmacêuticos, que ao serem administrados na
mesma dose molar e condições experimentais, não
demonstram diferenças estatisticamente significativas em relação
à biodisponibilidade.
- Medicamento
similar aquele que contém o mesmo ou os mesmos princípios
ativos, apresenta a mesma concentração, forma farmacêutica,
via de administração, posologia e indicação
terapêutica, preventiva ou diagnóstica do medicamento
de referência registrado no órgão federal responsável
pela vigilância sanitária, podendo diferir somente em
características relativas ao tamanho e forma do produto, prazo
de validade, embalagem, rotulagem, excipientes ou veículos,
devendo sempre ser identificado por nome comercial ou marca.
- Medicamento
inovador medicamento apresentando em sua composição
ao menos um fármaco ativo que tenha sido objeto de patente,
mesmo já extinta, por parte da empresa responsável pelo
seu desenvolvimento e introdução no mercado no país
de origem, e disponível no mercado nacional.
- Medicamento
de referência medicamento inovador registrado no órgão
federal responsável pela vigilância sanitária
e comercializado no País, cuja eficácia, segurança
e qualidade foram comprovados cientificamente junto ao órgão
federal competente, por ocasião do registro.
- Medicamento
genérico medicamento similar a um produto de referência
ou inovador, que pretende ser com este intercambiável, geralmente
produzido após a expiração ou renuncia da proteção
patentária ou de outros direitos de exclusividade, comprovada
a sua eficácia, segurança e qualidade e designado pela
denominação comum brasileira (DCB) (denominação
do fármaco aprovada pelo órgão federal responsável
pela vigilância sanitária) ou, na sua ausência,
pela denominação comum internacional (DCI) (denominação
do fármaco recomendada pela Organização Mundial
de Saúde).
Existe
hoje, prova indubitável de que a biodisponibilidade de diferentes
produtos farmacêuticos varia de maneira significativa e a lista
de medicamentos para as quais isso vem sendo demonstrado, aumenta a
cada ano. É importante distinguir entre bioinequivalência,
uma diferença estatisticamente significativa na biodisponibilidade,
e inequivalência terapêutica, uma diferença
clinicamente significativa na biodisponibilidade. A freqüência
com que ocorre a bioinequivalência, apesar de não conhecida,
provavelmente é muito comum. A inequivalência terapêutica,
por sua vez, é nitidamente menos comum e o grau de diferença
na biodisponibilidade que precisa existir para que se manifestem conseqüências
terapêuticas irá variar com o fármaco. Grandes diferenças
de biodisponibilidade serão sempre significativas. Diferenças
pequenas provavelmente terão conseqüências para fármaco
com uma curva de dose e resposta íngreme ou um índice
terapêutico pequeno.
Problemas
de bioineqüivalência têm sido observados entre vários
produtos, o que justifica a importância dos estudos comparativos
de diferentes preparações quanto à biodisponibilidade,
denominados estudos de bioequivalência, no intuito de garantir
ao paciente equivalência terapêutica entre os diferentes
medicamentos comercializados principalmente, em terapias de risco, onde
as substituições entre formulações podem
resultar em falhas graves.
Em
geral os estudos de biodisponibilidade atendem a diferentes objetivos
:
1
Realizar estudos de bioequivalência
2
Avaliar medicamentos que contem novas substâncias ativas em
terapêutica
3
Avaliar novas formulações contendo substâncias
ativas já conhecidas
4
Determinar as alterações no perfil de absorção
causadas por formas
farmacêuticas de liberação controlada, em relação
às formulações normais
5
Avaliar medicamentos com vários fármacos
6
Avaliar mudanças na formulação
7
Orientar mudanças de posologia /esquema terapêutico
3.1.
Avaliação de biodisponibilidade e bioequivalência
Os
estudos de biodisponibilidade e bioeqüivalência devem
ser realizados em humanos, voluntários, adultos, sadios e em
condições padronizadas. O emprego de pacientes, poderia
acarretar variações na biodisponibilidade e eliminação
devido às doenças, bem como risco de interações
medicamentosas, nos casos de administrações concomitantes.
Em geral, doses únicas dos produtos são analisadas, com
o objetivo de avaliar o desempenho das mesmas nas condições
padronizadas; raramente a biodisponibilidade é avaliada em esquemas
de doses múltiplas.
Os
sujeitos devem ser selecionados com base em exame médico satisfatório,
tendo funções hepáticas e renais normais. A idade
deve ser mantida na faixa de 18 a 50 anos reduzindo, assim, respostas
anômalas idade-dependentes. Mesmo assim, variações
intra e inter sujeitos comumente ocorrem.
O
número de voluntários para os estudos de biodisponibilidade,
segundo Resolução n0 391 de 09/08/99
é de no mínimo 12, do sexo masculino (exceto para os casos
em que o medicamento seja indicado apenas para mulheres); Já
para os estudos de bioequivalência o número mínimo
de voluntários sadios previsto é de 24, não sendo
feita exigência de sexo porém, quando ambos são
usados o número de homens e mulheres deverá ser igual.
Em qualquer dos casos, os voluntários devem dar seu consentimento
à realização do trabalho, após terem sido
conscientizados ou informados das reais condições do mesmo.
O
peso dos voluntários deverá estar em um limite de ±
10% do peso considerado normal para homens e mulheres levando-se em
consideração a altura e a estrutura física. Não
fumantes são preferidos e a ingestão de álcool
deve ser proibida.
A
padronização das atividades dos voluntários durante
o período de realização dos experimentos também
é de crucial importância. Jejum de 10-12 horas deve ser
feito antes da administração do produto e as refeições,
após a administração e durante o período
de coleta das amostras, devem ser padronizadas. Outros fármacos
não devem ser administrados em paralelo e, de preferência,
o voluntário não deve ter tomado outra medicação
no período de uma semana antes da realização do
experimento, evitando, assim, alguma interação do tipo
indução enzimática, competição por
proteínas plasmáticas, dentre outras.
O
plano experimental inclui, necessariamente, o desenho do experimento,
que deve identificar e isolar as fontes de variação dos
dados em estudo que podem ser: variações entre sujeitos
e intra sujeitos, em diferentes períodos do trabalho; efeito
dos períodos de administração, causado pela ação
residual dos tratamentos; variabilidade do tratamento ou do próprio
produto por diferentes doses ou formulações; erro residual
ou experimental, que inclui qualquer fonte de variação
que não tenha sido identificada, tal como erro no método
de análise.
O
estudo de bioequivalência é do tipo aberto, aleatório,
cruzado, onde os voluntários recebem os medicamentos teste e
referência em ocasiões separadas (períodos); o número
de períodos e de seqüências do estudo será
determinado em função do número de medicamentos
em análise, de forma a assegurar a validade estatística.
O intervalo entre os períodos deve ser de, no mínimo,
cinco meias-vida de eliminação do fármaco ou seu
metabólito, quando o mesmo for ativo. O desenho experimental
mais comumente utilizado e citado como apropriado para avaliação
de bioeqüivalência entre formulações é
o tipo "cross-over". Delineamentos, onde todos os sujeitos recebem cada
produto, denominam-se "cross-over" completo, sendo seu objetivo o de
que cada indivíduo funcione como seu próprio controle,
com base no fato de que a variação intra-sujeitos é
bem menor que a inter sujeitos.
Em
estudos de biodisponibilidade, após o planejamento e delineamento
do experimento, os indivíduos recebem as formulações
em horário e condições pré-determinadas
e são submetidos a coletas de sangue, fluido biológico
normalmente utilizado para quantificação das concentrações
das substâncias ativas em questão. O cronograma de coleta
das amostras deverá contemplar um tempo igual ou superior a 3-5
vezes a meia-vida de eliminação do fármaco ou do
metabólito quando o mesmo for ativo. Em estudos de doses simples,
um número suficiente de amostras deve ser coletado para descrever,
adequadamente, as fases críticas da curva de concentração
x tempo: absorção, permitindo, assim, comparação
qualitativa da velocidade da disponibilidade; tempo em que ocorre o
pico de concentração máxima; declínio da
concentração na fase de eliminação. Para
evitar problemas de interações entre as próprias
formulações testadas, em geral intervalos de uma semana
são respeitados entre uma administração e outra.
O
projeto de pesquisa, o protocolo experimental e o termo de consentimento
dos voluntários devem ser submetidos a um Comitê de Ética
em Pesquisa (CEP) credenciado no Comitê Nacional de Ética
em Pesquisa (CONEP) do Conselho Nacional de Saúde do Ministério
da Saúde (MS).
O
sangue, plasma ou soro, como já mencionado, é o fluido
biológico de escolha para quantificação do fármaco
ou metabólito ativo nos estudos de biodisponibilidade e bioequivalência.
Dados urinários também podem ser utilizados, no entanto,
os métodos de avaliação, através de dados
de excreção urinária, estão sujeitos a maior
variação e erro em relação aos que empregam
técnicas de análise no sangue; devem ser utilizados para
estudos de fármacos extensamente eliminados pela urina na forma
não metabolizada e o período aconselhado de coleta de
amostras é de, pelo menos, sete meias vidas biológicas
do fármaco.
Assim,
o melhor caminho para avaliar a biodisponibilidade de um fármaco
é a medida de seus níveis sangüíneos.
Nestes estudos, sempre que possível faz-se referência aos
níveis plasmáticos resultantes da administração
intravenosa do fármaco, já que esta via apresenta biodisponibilidade
de 100%. Caso a administração não seja possível,
a preparação referencial pode ser uma solução
administrada por via oral ou outra preparação do fármaco
de comprovada eficiência.
Uma
vez obtidos os dados dos teores do fármaco na circulação,
curvas de de concentração sangüínea vs
tempo são traçadas e parâmetros farmacocinéticos
extraídos das mesmas para determinação da biodisponibilidade
e/ou bioequivalência. Três parâmetros que descrevem
a curva de nível sangüíneo são considerados
importantes nestes estudos.
- Concentração
plasmática máxima (Cmáx)
Este
parâmetro representa a maior concentração sangüínea
alcançada pelo fármaco após administração
oral, sendo, por isso, diretamente proporcional à absorção.
Desta forma, depende diretamente da extensão e velocidade de
absorção, porém, também da velocidade de
eliminação, uma vez que esta inicia-se assim que o fármaco
é introduzido no organismo. Esta medida não deve ser avaliada
por si só, pois pode conduzir a conclusões errôneas.
Para
efeito terapêutico ótimo e seguro, este parâmetro
deve estar posicionado, na curva de concentração. sangüínea
X tempo, entre a concentração mínima efetiva(CME)
e a concentração máxima tolerada (CMT) (Figura
5).
- Tempo
para alcançar a concentração máxima no
plasma (Tmáx)
Este
parâmetro tem íntima relação com a velocidade
de absorção do fármaco e pode ser usado como simples
medida desta. É alcançado quando a velocidade de entrada
do fármaco na circulação é excedida pelas
velocidades de eliminação e distribuição;
absorção não pode, portanto, ser considerada completa
neste estágio.
- Área
sob a curva de concentração plasmática vs. tempo(ASC)
Representa
a quantidade total de fármaco absorvido. Para fármacos
administrados cronicamente, é um parâmetro mais crítico
que a velocidade de absorção. É considerado o mais
importante parâmetro na avaliação da biodisponibilidade,
sendo expressado em quantidade/volume x tempo (m g/mL x h) e pode
ser considerado representativo da quantidade total de fármaco
absorvido após administração de uma só dose
desta substância ativa.
ASC
é proporcional à quantidade de fármaco que entra
na circulação sistêmica e independe da velocidade.
Matematicamente, é obtida por cálculo através do
método da regra trapezoidal .
Duas
formulações são consideradas bioeqüivalentes
quando liberam a substância ativa e esta alcança a circulação
geral com a mesma extensão e velocidade relativa, ou seja, os
perfis de níveis sangüíneos do fármaco, obtidos
destas formulações, são "superponíveis"
dentro de limites razoáveis; normalmente 20% é o valor
de diferença aceito na comparação dos três
parâmetros farmacocinéticos. A Resolução
n0 391 de 09/08/99 determina que além dos três
parâmetros acima descritos também devem ser determinados
a depuração, o volume aparente de distribuição
e a meia-vida de eliminação, embora não haja necessidade
de tratamento estatísico para estes. Já para comparação
dos parâmetros farmacocinéticos Cmáx., Tmáx.
e ASC, em estudos de bioequivalência é proposto:
- Realizar
análise de variância (ANOVA) dos parâmetros farmacocinéticos
Cmáx. e ASC, para avaliar os efeitos de seqüência
(grupo) de voluntários, de período e de tratamento.
Nos estudos que empregam dose única (DU) dos medicamentos teste
e referência, a ANOVA é geralmente realizada com os dados
destes parâmetros transformados logaritmicamente, pois a distribuição
dos dados transformados, aproxima-se mais a uma distribuição
normal em relação aos dados não transformados.
- Empregar
para análise de ASC e Cmáx., dois testes t unicaudais,
com nível de significância de m = 0,05, construindo-se
um intervalo de confiança (IC) de 90% para a razão entre
as medidas dos valores obtidos com os medicamentos teste e referência,
para um destes parâmetros, utilizando-se dados transformados
logaritmicamente. Tmáx. será analisado como diferença
individual: teste-referência, construindo-se um intervalo de
confiança (IC) de 90%, utilizando-se teste não paramétrico.
- Dois
medicamentos serão considerados bioequivalentes quando IC de
90% para a razão entre as médias de ASC e Cmáx.
estiver compreendido entre 80 e 125%. Outros limites de IC de 90%
poderão ser aceitos mediante justificativas científicas.
Quando clinicamente relevante Tmáx. também deverá
ser considerado.
Na
avaliação de biodisponibilidade de um fármaco,
também o parâmetro biodisponibilidade absoluta (F)
deverá ser determinado, o qual corresponde à fração
da dose administrada do fármaco efetivamente absorvido. É
calculada através da relação entre a área
sob a curva (ASC) obtida após a administração do
medicamento teste (Te), por via extravascular e a ASC obtida após
administração do medicamento de referência (R),
por via intravenosa. Caso a administração intravenosa
não seja possível, pode-se empregar uma solução
contendo o fármaco administrada por via oral. O cálculo
de F pode ser assim realizado:
F(%)
= ASC (Te) x Dose (R) x 100
ASC (R) Dose (Te)
Por
sua vez, na avaliação de bioequivalência entre duas
formulações a biodsponibilidade relativa (Frel
) pode ser um parâmetro auxiliar e pode ser calculado por:
%Frel
= ASC (Te) x 100
ASC
(R)
Relativa
à mesma dose e via de administração
Como
já referido, a biodisponibilidade é conseqüência
precípua da formulação farmacêutica utilizada
e, consequentemente, da fase farmacêutica do estudo da resposta
terapêutica. No entanto, além dela diferentes circunstâncias
como patologias, a presença de alimentos para fármacos
administrados por via oral ou outros medicamentos administrados concomitantemente,
são fatores que podem interferir diretamente na absorção
de fármacos (como anteriormente descrito) e, consequentemente,
em sua biodisponibilidade.
Didaticamente
pode-se classificar os fatores que influem na biodisponibilidade
de medicamentos em: farmacêuticos, fisiopatológicos e genéticos.
Os
fatores farmacêuticos, objeto de estudo da biofarmácia,
estão particularmente relacionados com as formas farmacêuticas
de administração, dentre os quais merecem destaque as
características das matérias primas (ativas ou não),
as formulações e os processos tecnológicos.
Os
fatores fisiológicos estão relacionados com o peso
corpóreo, idade, velocidade de esvaziamento gástrico,
velocidade de fluxo sangüíneo, estado de nutrição,
gravidez e outros; muitos deles discutidos no tópico sobre absorção
de fármacos. Alterações biológicas derivadas
de estados patológicos podem também interferir
de forma significativa na biodisponibilidade de medicamentos, muito
particularmente daqueles relacionados com doenças cardíacas
e hepáticas.
Já
os fatores genéticos, estão relacionados com diferenças
bioquímicas características de grupos étnicos,
que se distinguem de estados patológicos, as quais, no entanto,
podem promover significativas alterações na biodisponibilidade
de medicamentos.
IV
- Modelos Farmacocinéticos
início
Os
fármacos dentro do organismo encontram-se em um estado dinâmico.
Em um sistema biológico os movimentos dos fármacos, freqüentemente,
ocorrem simultaneamente e com o objetivo de descrever este complexo
sistema biológico, suposições simplificadas destes
movimentos são realizados. Uma hipótese ou modelo é
concebida usando termos matemáticos, os quais são um meio
conciso de expressar ralações quantitativas. Vários
modelos matemáticos podem ser usados para simular a velocidade
ou taxa dos processos de absorção, distribuição
e eliminação, sendo denominados, modelos farmacocinéticos.
Estes modelos, possibilitam o desenvolvimento de equações
para descrever concentrações do fármaco no organismo
em função do tempo, as quais permitem caracterizar com
reprodutibilidade o ambiente e o destino de um fármaco no sistema
biológico, após sua administração por uma
determinada via de administração e forma farmacêutica.
Os
parâmetros farmacocinéticos como Vd, t1/2
e clearance, são determinados experimentalmente a partir de curvas
de concentração (variável dependente) em função
do tempo (variável independente). Porém, para interpretação
destas curvas e obtenção dos parâmetros, um modelo
farmacocinético é estimado e testado quanto a validade
a partir destas; e uma vez validado os parâmetros farmacocinéticos
são obtidos. Programas computacionais podem ser usados para estimar
parâmetros a partir de modelos farmacocinéticos complexos.
Devemos sempre lembrar que na verdade, como acabamos de ver, os parâmetros
farmacocinéticos são adaptados de modelos e, por isto,
são sujeitos a erros de estimativa que podem variar com as concentrações
obtidas, técnicas analíticas de dosagens e metodologias
utilizadas na interpretação dos dados.
Em
geral, modelos farmacocinéticos podem ser utilizados para:
- Predizer
os níveis do fármaco no plasma, tecidos e urina
- Calcular
o melhor regime de dosagem para cada paciente individualmente
- Estimar
uma possível acúmulo do fármaco e/ou metabólitos
- Correlacionar
concentrações do fármaco com atividade farmacológica
ou tóxica
- Avaliar
diferenças na velocidade e extensão da biodisponibilidade
entre formulações (bioequivalência)
- Descrever
como alterações fisiológicas ou patológicas
afetam os processos farmacocinéticos de absorção,
distribuição e eliminação do fármaco
- Esclarecer
interações entre fármacos
Como
os modelos farmacocinéticos são uma hipótese,
uma suposição simplificada, a qual descreve sistemas biológicos
em termos matemáticos, um certo grau de precaução
é necessário na aplicação destes modelos
para predizer a ação de um fármaco. Na prática,
o modelo deve ser testado experimentalmente em uma variedade de condições
de estudo. Usualmente, o modelo farmacocinético mais simples
é testado. Critérios estatísticos tal como o uso
de somatório dos quadrados dos desvios entre dados experimentais
e os valores calculados obtidos dos modelos, são usados para
determinar o quanto o modelo se adapta aos dados. Se o modelo não
se adapta precisamente às observações experimentais,
um novo modelo (hipótese) mais complexo pode ser proposto e subseqüentemente
testado.
Como
já foi dito, o conceito de compartimento é fundamental
em farmacocinética. Ele representa uma maneira simplificada mas
extremamente útil na abordagem da compreensão dos processos
de distribuição dos medicamentos no organismo humano.
O corpo pode ser representado como uma série, ou sistemas, de
compartimentos que comunicam-se reversivelmente entre si. Um compartimento
não é uma região anatômica ou fisiológica
real, mas é considerada como um tecido ou grupo de tecidos que
devem possuir fluxo sangüíneo e afinidade pelo fármaco
similares. Dentro de cada compartimento considera-se que o fármaco
distribua-se uniformemente; a mistura do fármaco dentro do compartimento
é rápida e homogênea, tanto que sua concentração
é representada como uma concentração média
e cada molécula do fármaco possui igual probabilidade
de sair do compartimento. Modelos compartimentais são baseados
em hipóteses lineares usando equações diferenciais
e, embora os compartimentos farmacocinéticos não corresponda
a nenhuma das entidades anatômicas atuais, o compartimento, todavia,
apresenta dimensões numéricas de volume (ml, litro) como
se fossem um volume real.
Conceitualmente,
fármacos movem-se para dentro e para fora dos compartimentos.
Velocidades constantes são usadas para representar a velocidade
total do processo de entrada e saída do fármaco do compartimento.
O modelo é um sistema aberto desde que o fármaco possa
ser eliminado deste sistema.
O
emprego de modelos compartimentais em farmacocinética
leva, geralmente, implícita a suposição de que
os processos que se estudam, ou o fluxo dos fármacos até
o compartimento, se desenvolvem segundo cinética de primeira
ordem. Por exemplo, o resumo dos processos que retiram medicamentos
do organismo irreversivelmente, pode caracterizar-se por uma constante
de velocidade de eliminação de primeira ordem cinética,
que compreenderia a excreção urinária, a biotransformação
e outros processos que contribuem na retirada do fármaco do organismo.
A
cinética de primeira ordem implica que a velocidade na qual
se produz um processo é proporcional à quantidade ou concentração
do fármaco existente no compartimento no qual se desenvolve.
Assim, se é grande a quantidade de medicamento no organismo também
é, ou será, alta a velocidade de eliminação.
Por outro lado, a eliminação diminuirá proporcionalmente
com a redução da quantidade ou concentração.
Também
a transferência do medicamento de um compartimento a outro pode
obedecer cinética de primeira ordem e o mesmo ocorre com a maioria
dos processos que os fármacos experimentam no organismo. Em geral,
alguns deles não são estritamente de primeira ordem, como
por exemplo a biotransformação a secreção
tubular ou a transferência através de uma membrana quando
processos ativos estão envolvidos. Estes podem obedecer à
uma cinética mais complexa, por exemplo a processos enzimáticos
regidos pela equação de Michaelis-Menten. No entanto,
as concentrações de fármaco com as quais normalmente
se trabalha em farmacocinética (terapêuticas), aparecem
na maioria das vezes como de primeira ordem.
Assim,
podemos dizer que os processos farmacocinéticos correspondem
a uma cinética linear. Uma conseqüência desta linearidade
é o fato de que a área sob a curva (ASC) de concentração
plasmática vs tempo, após injeção
por via intravenosa, é uma função linear da dose
administrada.
Os
modelos compartimentais consistem de um ou mais compartimentos
periféricos conectados à um compartimento central.
O compartimento central é representado pelo plasma e tecidos
altamente perfundidos. Assim, quando uma dose intravenosa do fármaco
é administrada, ela entra diretamente no compartimento central
e também é deste compartimento que ocorre sua eliminação,
uma vez que é no compartimento central que se encontra os órgãos
envolvidos na eliminação, primariamente rins e fígado,
tecidos altamente perfundidos.
Modelos
de um dois ou mais compartimentos são descritos e, normalmente,
representados (desenhados) esquematicamente por caixas reservatórios.
Esta representação nos permite uma representação
visual da velocidade do processo, identificar quantas constantes farmacocinéticas
serão necessárias para descrevê-lo adequadamente
e, o mais importante, extração de equações
diferenciais para descrever alterações na concentração
do fármaco em cada compartimento. A figura 6 apresenta alguns
destes modelos, a partir dos quais são deduzidas equações
matemáticas apropriadas para descrevê-los, bem como avaliar
os parâmetros farmacocinéticos deles originados.
- Modelo
aberto de um compartimento
É
o modelo compartimental mais simples e pode representar fármacos
que após administração, se distribuem através
da via circulatória para todos os tecidos e se equilibra rapidamente
em todo o organismo. Esta administração pode ser na forma
de injeção intravenosa rápida (IV bolus), através
da qual toda a dose do fármaco entra imediatamente no organismo
e, portanto, a velocidade de absorção é negligenciada
(não é levada em conta) nos cálculos; ou ainda
por via extravenosa (VEV), onde a etapa de absorção deve
ser considerada. No entanto, em nosso curso visando alcançar
um entendimento básico da importância da aplicabilidade
deste modelo, simplificaremos nosso trabalho, levando sempre em conta
em nosso exemplo a VIV.
O
modelo de monocompartimental, descreve muitas vezes adequadamente as
alterações sofridas ao longo do tempo, na concentração
plasmática ou na excreção urinária de fármacos
que após a administração, se distribuem rapidamente
entre o plasma e os tecidos. Admitir a existência de tal modelo
não implica, necessariamente presumir que as concentrações
plasmática e tissular do fármaco sejam as mesmas, porém
é essencial que as alterações que ocorrem no plasma
reflitam aquelas nos níveis tissulares do fármaco, ou
seja que exista uma relação constante entre estas duas
variáveis.
Como
já discutimos nos modelos compartimentais presume-se que a o
movimento do fármaco através destes siga a chamada cinética
de primeira ordem, significando que a velocidade do processo seja proporcional
à quantidade de fármaco presente. Assim, para descrever
a eliminação do fármaco de um compartimento é
conveniente usar os métodos de cálculo diferencial e integral.
Assim, a velocidade de alteração (dC/dt) na quantidade
de fármaco presente no organismo (X) pode ser expressa por:
-dX/dt
µ X sendo dX/dt = -kX (Equação
1)
onde,
k = constante de velocidade de eliminação de primeira
ordem
t
= tempo
Equações
diferenciais deste tipo são conhecidas como lineares (a variável
dependente C só aparece em sua primeira potência) e homogêneas
(C aparece apenas uma vez em cada termo). Portanto, processos de primeira
ordem originam cinéticas lineares e uma conseqüência
importante disto, é que a área total sob a curva que relaciona
a concentração plasmática com o tempo (ASC), após
administração intarvenosa, é uma função
linear da dose administrada (dobrando-se a dose e mantendo-se iguais
outros fatores, ASC também será duplicada).
Através
da integração entre os limites de tempo zero (inicial)
e t da equação 1, podemos obter a equação
2, abaixo, a qual nos permite obter valores de concentração
(C) para qualquer momento t .
Xt
= Xo e kt (Equação 2)
Onde,
X0 = concentração
Xt
= concentração a um tempo determinado
A
equação 2, enuncia que a quantidade de fármaco
no organismo diminui ao longo do tempo de forma exponencial (como a
água escoa de uma banheira) e, o processo é chamado declínio
exponencial porque a variável t está no expoente.
Como
sabemos o modelo de um compartimento admite haver uma relação
constante entre a concentração do fármaco no plasma
e a quantidade deste no organismo, isto é:
X
= VdC (equação 3)
Onde:
C = concentração plasmática
Vd
o volume de distribuição aparente
Considerando
X0 a dose do fármaco administrado, podemos através
da equação 3 obter o valor do volume de distribuição
(Vd ):
Vd
= X0/C0 (equação 4)
Utilizando
a equação 3, podemos rescrever a equação
2 em termos de concentração:
Ct
= C0 e kt (equação 5)
A
equação 5 pode ser também rescrita em temos logarítmicos:
Ln
C = ln C0 kt (equação 6)
E,
a equação 6 pode ser convertida em termos logarítmicos
comuns(de base 10), pela divisão por 2,303:
Log
C = log C0 kt/2,303 (equação 7)
Assim,
plotando o log de C em função de t, obtém-se um
linha reta e log de C0 pode ser obtido por extrapolação
desta até o ponto zero (Figura 7). O coeficiente angular da reta
(inclinação) é k/2,303 e desta pode-se obter a
constante de velocidade de eliminação do fármaco.
Em farmacocinética, freqüentemente, é usada escala
logarítmica para concentrações utilizadas para
traçar curvas em função do tempo, pois através
destas podemos trabalhar com maior facilidade matemática com
retas e não curvas exponenciais.
O
tempo de meia vida (t1/2), tempo necessário
para que a concentração plasmática do fármaco
caia à metade, também pode aqui ser obtido, graficamente
(Figura 7) ou através da substituição na equação
6:
ln
C = ln C0 kt ln C0 - Ln C = kt
Quando,
t = t1/2 C = C0/2, assim:
Ln
C0/C0/2 =
k t1/2 ln 2 = k t1/2 0,693
= k t1/2
t1/2
= 0,693/k (equação 7)
Como
o t1/2 pode ser extrapolado diretamente após a construção
do gráfico de concentração vs tempo (Figura
7), uma maneira prática de se obter k, é:
K
= 0,693/ t1/2 (equação 8)
O
clearance total de um fármaco, como sabemos corresponde ao somatório
de todos os clearances que contribuem para sua eliminação
do organismo. Matematicamente, pode ser expresso de diferentes maneiras;
por exemplo como a relação entre dose e a área
sob a curva de concentração plasmática vs
tempo (ASC) calculada segundo método dos trapézios:
Cl
= Dose/ASC (equação 9)
Esta
expressão da equação 9 independe do modelo compartimental
farmacocinético utilizado, é considerado universal. Porém,
no caso específico do modelo de um compartimento, podemos empregar
a equação 10:
Cl
= k Vd = 0,693/ t ˝ Vd (equação
10)
Podemos
visualizar através da equação 9 que, como regra
geral o clearance é inversamente proporcional ao tempo de meia
vida e diretamente proporcional ao volume de distribuição.
Em
clínica normalmente somente o clearance total e o renal são
determinados e a diferença entre eles é considerada o
clearance não renal ou extra renal. Muitas vezes, o clearance
extra renal corresponde, principalmente, à eliminação
por processos de biotransformação no fígado.
Modelos
multicompartimentais
Estes
modelos são necessários para explicar a observação
de que após uma rápida administração IV
a curva de nível plasmático vs tempo não
declina linearmente como uma única velocidade de primeira ordem.
Em um modelo multicompartimental o fármaco se distribui a várias
velocidades dentro de diferentes grupos de tecidos. Aqueles que apresentam
elevado fluxo sangüíneo podem equilibrar-se com o compartimento
plasmático, assim somado ao sangue compõem o compartimento
central. Enquanto esta distribuição inicial do fármaco
é efetuada, o fármaco é liberado para um ou mais
compartimentos periféricos compostos de grupos de tecidos
com menor fluxo sangüíneo e afinidade pelo fármaco.
Esta diferença é que leva à aparência não
linear da curva de concentração sangüínea
do fármaco em escala logarítmica vs tempo. Após
equilíbrio do fármaco nestes tecidos periféricos
a curva reflete, então, eliminação de primeira
ordem do fármaco para fora do organismo.
Com
o objetivo de aplicar análise cinética em modelos multicompartimentais,
devemos assumir que a velocidade geral do processo de passagem do fármaco
entre os compartimentos é de primeira ordem. Com base nesta suposição
a curva de nível plasmático por tempo para um fármaco
que segue um modelo multicompartimental é melhor descrito pelo
somatório de vários processos com velocidade de primeira
ordem.
- Modelo
de dois compartimentos
Apesar
extremamente útil para muitos objetivos, o modelo de um compartimento
muitas vezes não se aplica ao perfil do movimento de fármacos
pelo organismo. A maioria destes casos pode ser resolvida aplicando-se
um modelo um pouco mais complexo, porém mais realístico,
o de dois compartimentos.
Neste
quando o fármaco é introduzido diretamente no compartimento
central (VIV) o nível sangüíneo cai de maneira bifásica.
A rápida queda inicial representa a distribuição
do fármaco do compartimento central para o periférico,
embora sua eliminação comece a ocorrer desde que é
introduzido no organismo. Num certo momento, é atingido um "pseudo-equilíbrio"
de distribuição entre o central e compartimento periférico;
isto ocorre quando a razão do fármaco entre os compartimentos
se aproxima de um valor constante, mantido durante a segunda fase, mais
lenta do declínio da concentração sangüínea
do fármaco, a qual reflete principalmente sua eliminação.
Uma representação teórica destes eventos pode ser
visualizada na Figura 8. Durante essa segunda fase, a perda do fármaco
pelo organismo é descrita por um processo monoexponencial indicativo
da homogeneidade cinética entre os níveis do fármaco
em todos os líquidos e tecidos do organismo (Figura 9).
A
descrição de equações matemáticas
deste modelo, como era de se esperar, apresenta maior complexidade e
foge dos objetivos de nosso curso seu detalhamento. No entanto, a bibliografia
básica deste material pode ser consultada para um aprofundamento
neste campo.
- Modelos
não compartimentais
Como
sabemos os modelos compartimentais são uma simplificação
do organismo e por isto deve ser aplicado com cautela. Além disso
esses modelos são altamente dependentes da espécie e,
embora tenham muitos usos clínicos, a quantidade de informações
básicas fornecidas, é limitada; isto é especialmente
verdadeiro para a previsão de níveis tissulares. Os modelos
compartimentais não levam em conta a ligação fármaco-proteína,
embora possa ser afetado por ela.
Devido
à todas as limitações referidas dos modelos compartimentais
e visando a obtenção de dados cada vez mais fidedignos
modelos não compartimentais tem sido desenvolvidos e avaliados.
Estes
modelos são anatômica e fisiologicamente realistas e desenvolvidos
com base nos fluxos sangüíneos e volumes reais dos órgãos,
levando-se em conta tanto o fármaco ligado quanto o livre, no
sangue ou tecidos. Assim, descrevem mais realisticamente a disposição
do fármaco em cada tecido ou órgão, no entanto,
estes modelos são demasiadamente complexos à nível
matemático, perdendo universalidade.
A
principal vantagem destes modelos é a possibilidade de prever
o comportamento farmacocinético de um determinado fármaco
no homem, a partir de dados obtidos em animais e adaptados matematicamente
para tal aplicação.
V
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