Benzeno
- É um hidrocarboneto aromático que se apresenta como um líquido incolor,
lipossolúvel, volátil, inflamável, de odor característico, perceptível
a concentrações da ordem de 12 ppm, cuja fórmula molecular é C6H6 (Fundacentro
1993). Registro CAS n.71-43-2, registro ONU n.1114.
Benzenismo
- Conjunto de sinais, sintomas e complicações, decorrentes da exposição
aguda ou crônica ao hidrocarboneto aromático, benzeno. As complicações
podem ser agudas , quando de exposição a altas concentrações com presença
de sinais e sintomas neurológicos, ou crônicas, com sinais e sintomas
clínicos diversos , podendo ocorrer complicações a médio ou a longo
prazo localizadas principalmente no sistema hematopoético.
Exposição
ocupacional ao benzeno - Principais fontes:
Siderurgias;
Indústrias
do petróleo;
Indústrias
petroquímicas;
Indústrias
químicas que utilizam o benzeno em processo de síntese química;
Laboratórios
de análise química;
Postos
de gasolina e mecânicos de automóveis.
Atividades
que usam gasolina como solvente.
EFEITOS
AGUDOS: O benzeno é um irritante moderado das mucosas e sua aspiração
em altas concentrações pode provocar edema pulmonar. Os vapores são,
também, irritantes para as mucosas oculares e respiratórias.
A absorção
do benzeno provoca efeitos tóxicos para o sistema nervoso central causando
de acordo com a quantidade absorvida, narcose e excitação seguida de
sonolência, tonturas, cefaléia, náuseas, taquicardia, dificuldade respiratória,
tremores, convulsões, perda da consciência e morte.
EFEITOS
CRÔNICOS: PRINCIPAIS AGRAVOS À SAÚDE
ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS: Vários tipos
de alterações sangüíneas, isoladas ou associadas, estão relacionadas
à exposição ao benzeno. Devidas à lesão do tecido da medula óssea (local
de produção de células sangüíneas), essas alterações correspondem, sobretudo
a Hipoplasia, Displasia e Aplasia.
O aparecimento
de macrocitose, pontilhado basófilo, hiposegmentação dos neutrófilos
(pseudo Pelger), eosinofilia, linfocitopenia e macroplaquetas são
alterações precocemente apreciadas na toxicidade benzênica (Ruiz 1988,
1993).
Alterações
neuro-psicológicas e neurológicas: São observadas alterações como:
atenção, percepção, memória, habilidade motora, viso-espacial, viso-construtiva,
função executiva, raciocínio lógico, linguagem, aprendizagem e humor.
Outras
Alterações: Foram observadas alterações cromossômicas numéricas
e estruturais em linfócitos e células da medula óssea de trabalhadores
expostos ao benzeno. É possível fazer avaliação de danos cromossomiais
através de técnicas citogenéticas.
Toxicocinética
Na exposição ocupacional ao benzeno a principal via
de absorção é a via respiratória. Em alguns locais de trabalho, a absorção
cutânea de benzeno pode contribuir significativamente para a dose de
exposição.
Devido
a sua lipossolubilidade, o benzeno armazena-se preferencialmente no
tecido adiposo. Uma proporção de 10 a 50% do benzeno absorvido , dependendo
da dose, da atividade metabólica e da quantidade de lipídeos presentes
no organismo, é eliminada em sua forma inalterada através do ar expirado
e cerca de 0,1% é excretado inalterado na urina. A fração remanescente
é biotransformada, principalmente no fígado, em derivados hidroxilados
que são excretados na urina na forma de metabólitos conjugados ou produtos
de anéis abertos (Fig.1).
Via
metabólica do benzeno (Sherer,
1998).

Indicador biológico de exposição
Conceito: Indicador biológico de exposição
é uma substância química, elemento químico, atividade enzimática ou
constituintes do organismo cuja concentração (ou atividade) em fluido
biológico (sangue, urina, ar exalado) ou em tecidos, possui relação
com a exposição ambiental a determinado agente tóxico. A substância
ou elemento químico determinado pode ser produto de uma biotransformação
ou alteração bioquímica precoce decorrente da introdução deste agente
tóxico, no organismo. Para os agentes químicos preconizados na NR7,
é definido o índice biológico máximo permitido (IBMP) que é “o valor
máximo do indicador biológico para o qual se supõe que a maioria das
pessoas ocupacionalmente expostas não corre risco de dano à saúde. A
ultrapassagem deste valor significa exposição excessiva”. Este valor
(IBMP) deve ter correlação com a concentração do agente químico no ambiente
de trabalho, definida como limite de tolerância ou limite de exposição
ocupacional.
A adoção do VRT (Valor de Referência Tecnológico)
traz a necessidade de reavaliar o conceito de IBMP para o IBE ao benzeno.
O VRT é baseado principalmente na exeqüibilidade tecnológica e foram
estabelecidos valores distintos para diferentes ramos industriais. O
cumprimento do VRT é obrigatório, mas NÃO EXCLUI RISCO À SAÚDE. Por
isso, para o benzeno não faz sentido o estabelecimento de índice biológico
máximo permitido.
Na Alemanha, onde se utiliza TRK,
valor técnico de concentração ambiental para substâncias carcinógenas,
base conceitual do VRT, não se estabelecem valores limite para IBEs
de substâncias carcinógenas ou mutagênicas. São apresentadas no entanto,
listas de concentrações dos IBEs em fluidos biológicos equivalentes
a diferentes valores de concentração ambiental, para que sirvam de guia
na investigação da exposição do trabalhador a esses agentes.
No
Brasil, também está sendo adotado este conceito. Deverão ser estabelecidas
concentrações equivalentes dos IBEs com a concentração ambiental do
benzeno.
Portanto, este protocolo não trata somente
da introdução de um novo IBE para o benzeno, mas também da modificação
da maneira de se interpretar os resultados obtidos.
Da indicação do ácido trans, trans-mucônico
A monitorização biológica da exposição ao benzeno pode
ser realizada através de diferentes indicadores, que vão desde aqueles
com meia vida biológica curta como o benzeno no ar exalado ou seus metabólitos
urinários, até os adutores formados a partir de proteínas do sangue
e moléculas de DNA que podem persistir por meses no organismo humano.
O desenvolvimento de metodologias analíticas
vem oferecendo a possibilidade de avaliar uma série de indicadores biológicos
de exposição. Dentre os mais estudados, podemos destacar: os ácidos
trans,trans-mucônico e fenil mercaptúrico urinários, e o benzeno inalterado
no ar exalado, na urina e no sangue.
A concentração do metabólito urinário corresponde
a um valor médio ponderado, em relação ao período da exposição, ao momento
da coleta e ao tempo de biotransformação da substância. Sendo a urina
um fluido biológico que pode ser coletado através de processo não invasivo,
e recomendada neste protocolo.
Entre os indicadores biológicos urinários preconizados
para avaliar a exposição ocupacional ao benzeno em baixos níveis de
concentração no ar, o AttM-U é o de mais fácil determinação analítica,
e por isto foi decidido pela CNP-Bz recomendá-lo como IBE ao benzeno.
Características
do Ácido trans,trans-mucônico A primeira etapa no processo de biotransformação do
benzeno ocorre com a formação do epóxido de benzeno, através de uma oxidase
microssomal de função mista, mediada pelo citocromo P-450. A partir daí,
duas vias metabólicas se apresentam: a hidroxilação do anel aromático
ou a sua abertura com a formação do ácido trans,trans-mucônico (AttM)
(Barbosa, 1997). Para a avaliação da exposição ocupacional de indivíduos
com turnos de trabalho de seis a oito horas, a biotransformação do benzeno
em ácido trans,trans-mucônico fornece uma concentração máxima do produto
a partir de aproximadamente 5,1 horas após o inicio da exposição, sendo
que cerca de 2 a 3,9% do benzeno absorvido é excretado pela urina na forma
de AttM (Coutrim et al., 2000; Boogaard & Sittert, 1995)
Procedimentos de coleta
As amostras de urina devem ser coletadas em coletores
universais de plástico, de 50 ml, no término da jornada de trabalho.
Para jornadas de seis a oito horas diárias de trabalho, coletar a urina
a partir do terceiro dia seguido de exposição. Os frascos devem ser
imediatamente fechados e mantidos sob refrigeração (4oC)
até no máximo uma semana.
Em situações de jornadas diferentes das anteriores
ou situações de acidentes, deverão ser definidos critérios específicos
de coleta, tecnicamente justificados.
Transporte
das amostras
As amostras devem ser mantidas refrigeradas e
devem ser enviadas o mais rápido possível ao laboratório.
Armazenagem
Barbosa (1997) mostrou a estabilidade das amostras refrigeradas a -20ºC
(menos vinte graus celsius) por um período de até dez semanas. Costa (2001)
indicou que a amostra não sofre alteração por um mês, a esta temperatura.
De acordo com os achados de Martins, I. (1999) em estudos de estabilidade
do AttM -U, os resultados mostraram que no intervalo analisado (0,2 –
2,0 mg/L) a concentração de 0,2 mg/L mostrou-se estável somente por seis
semanas; a partir da sétima semana, o valor já se encontrava fora do gráfico
de controle. Já para a concentração de 2,0 mg/L, a estabilidade foi de
quinze semanas, permanecendo o analíto estável. Este autor também examinou
a estabilidade por um período de dez dias em amostras conservadas a 40C
e os resultados mostraram que o analíto permaneceu estável durante este
período para as concentrações estudadas. Destes fatos, julgamos prudente
que se armazene a amostra de urina a 40C por um período de
no máximo sete dias antes da análise. Se não for possível a análise das
amostras, no prazo de uma semana, elas devem ser refrigeradas a –20OC
(menos vinte graus celsius), por no máximo um mês. Análise
química
Recomenda-se a determinação do AttM-U segundo metodologia
cromatográfica baseada nos procedimentos metodológicos desenvolvidos
por Ducos et al. (1990), podendo se introduzir modificações, como apresentado
por Costa (2001).
O laboratório deve ter um método padronizado, validado e participar de programa
de controle de qualidade interlaboratorial e intralaboratorial para
garantia da confiabilidade analítica de seus resultados.
Interferentes
O AttM-U é um indicador sensível, mas de especificidade
média. A sua concentração é influenciada pelo hábito de fumar, quando
ocorre exposição simultânea ao tolueno ou pela ingestão de ácido sórbico
e seus sais presentes na alimentação (Ducos et al., 1990; Inoue et al.,
1989; Ruppert et al., 1997; Maestri et al., 1996; Kok & Ong, 1994).
Há suspeitas que hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) também
interferem nesta avaliação (Kivistö et al., 1997). Em trabalhadores
não ocupacionalmente expostos ao benzeno, a concentração do AttM-U está
abaixo de 0,5 mg/g creatinina. A presença do AttM-U (abaixo de 0,5 mg/g
creatinina) em pessoas não ocupacionalmente expostas é atribuída geralmente
a ampla poluição ambiental pelo benzeno que surge de fontes tais como
hábito de fumar e outros processos de combustão, poluição urbana pelos
automóveis e provavelmente contaminação de alimentos pelo ácido sórbico
um preservativo e agente fungistático muito comum em alimentos (queijo,
carnes, peixe desidratado, vegetais em conserva, bebidas, etc) que é
também convertido ao AttM, embora em quantidades traços. Nesta situação
sugere-se a coleta de urina muitas horas após a última refeição o que
permitiria ignorar um possível efeito aditivo do AttM-U decorrente da
ingestão do ácido sórbico.
Correção
de resultados
Os resultados deverão ser ajustados pela concentração
de creatinina na urina, e expressos em miligramas por grama de creatinina.
Interpretação
dos resultados
Os valores de AttM-U acima dos valores de referência
obtidos a partir de uma amostragem de uma população sadia, não ocupacionalmente
exposta ao benzeno, podem indicar provável exposição do trabalhador
a esta substância. Desta forma deve-se investigar o local de trabalho
e como estão sendo realizadas as tarefas, para identificar as possíveis
causas de sobre exposição. Valores acima dos correspondentes aos VRT
indicam que o ambiente de trabalho não está em conformidade com o preconizado
no Anexo 13A.
Os
resultados de muitos trabalhos realizados em ambientes onde não há exposição
ocupacional ao benzeno, têm mostrado dados bastante variados de AttM-U
em populações de fumantes e não fumantes. A tabela abaixo demonstra
esta situação:
Tabela – Dados encontrados na literatura
para concentração de AttM-U, em fumantes e não fumantes de população
não exposta ao benzeno
|
Ácido trans,trans-mucônico
|
Referência
bibliográfica
|
|
Fumantes
|
Não Fumantes
|
|
0,075
mg/g* (0,025-0,175)
|
0,025 mg/g*
|
Javelaud et al. (1998)
|
|
0,09
mg/g*
|
O,05
mg/g*
|
Ruppert et al. (1995)
|
|
0,25 mg/l** (0,06-0,43)
|
0,13 mg/l** (0,03-0,33)
|
Lee et al. (1993)
|
|
0,207
mg/g* (média 20 cigarros)
|
0,067 mg/g*
|
Maestri et al. (1995)
|
|
0,19 mg/g*
|
0,14 mg/g*
|
Ong et al. (1994a)
|
* mg/g = miligrama de ácido trans,trans
mucônico por grama de creatinina
** mg/l = miligrama de ácido trans,trans
mucônico por litro de urina
Para se fazer as correlações dos resultados
das análises de AttM-U com a concentração de benzeno no ar, deverão
ser utilizados os valores de correlação abaixo, estabelecidos pelo DFG
(1996), com alteração dos resultados em mg/l para mg/gramas de creatinina,
que foram feitas admitindo-se uma concentração média de 1,2 grama de
creatinina por litro de urina.
Tabela
– Correlação das concentrações de AttM-U com benzeno no ar, obtidas
a partir dos valores estabelecidos pelo DFG (1996), corrigidos para
grama/grama de creatinina (admitida concentração média de 1,2 grama
de creatinina por litro de urina)
|
Benzeno no Ar (ppm)
|
Benzeno no Ar (mg/m3)
|
Ac. t,t mucônico (urina) (mg/l)
|
Ac. t,t mucônico (urina) (mg/grama creatinina)
|
|
0,3
|
1,0
|
-
|
-
|
|
0,6
|
2,0
|
1,6
|
1,3
|
|
0,9
|
3,0
|
-
|
-
|
|
1,0
|
3,3
|
2
|
1,6
|
|
2
|
6,5
|
3
|
2,5
|
|
4
|
13
|
5
|
4,2
|
|
6
|
19,5
|
7
|
5,8
|
Ficha de notificação de elevação do indicador biológico de exposição do benzeno
acima da normalidade:
|
Nome da empresa
|
|
Endereço
|
|
Município
|
Estado
|
|
CEP
|
Tel.:
|
|
Data da anormalidade verificada:
|
|
Tipo de indicador biológico de exposição utilizado
|
|
|
Valor encontrado
|
Valor de normalidade
|
|
Nome do trabalhador
|
|
Função do trabalhador
|
|
Setor de atividade
|
|
Atividade realizada previamente o achado de anormalidade
|
|
|
Investigações proferidas ao caso para sua avaliação
pelo setor competente
|
|
|
Nome dos demais trabalhadores envolvidos nesta mesma
atividade
|
|
|
Condutas estabelecidas para os trabalhadores envolvidos
na atividade de risco
|
|
|
Condutas estabelecidas ou a serem estabelecidas no
ambiente de trabalho para melhoria das condições de exposição
ao benzeno
|
|
|
Observações
|
|
Data - __/__/__
|
Assinatura do profissional responsável
carimbo legível
|
|
|
|
|
|
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
Ministério
da Saúde/ Norma de Vigilância da Saúde dos Trabalhadores expostos ao
Benzeno (julho 2003)